Se eu gerisse o meu negócio como Montenegro gere o País, já estaria falido há 38 anos

Se eu gerisse o meu negócio como Montenegro gere o País, já estaria falido há 38 anos. Precisamente no ano em que o criei. Porque uma empresa não vive de conferências de imprensa, optimismo ministerial e promessas de dinheiro futuro. Vive de receitas efectivas, despesas controladas e responsabilidade pelas decisões.

Vem isto a propósito da TAP. Os contribuintes suportaram cerca de 3,2 mil milhões de euros para manter a companhia a voar. Agora, a proposta da Lufthansa para adquirir a totalidade aponta para cerca de 2,5 mil milhões. Mais precisamente, 2 552 milhões, somando as duas fases previstas da operação.tvi.iol+1

Feitas as contas aos valores arredondados, estamos a falar de aproximadamente 700 milhões de euros de diferença. Não são trocos. São recursos públicos que tiveram de sair de algum lado e que deixaram de estar disponíveis para outras necessidades.

Mas há outro pormenor: nem toda a contrapartida seria paga em dinheiro. A proposta inclui uma participação no grupo Lufthansa, avaliada em 488 milhões de euros. Portanto, uma parte do que o Estado receberia ficaria dependente do valor de acções, e não imediatamente disponível nos cofres públicos.tvi.iol

No meu negócio, se eu explicasse aos fornecedores que uma parte do pagamento seria feita com títulos sujeitos às oscilações da bolsa, talvez me pedissem outras garantias. E teriam razão. Quem trabalha com dinheiro contado conhece a diferença entre património avaliado e dinheiro recebido.

É verdade que comparar directamente o resgate com o preço de venda não conta toda a história. Houve uma pandemia, actividade económica preservada e decisões tomadas por governos anteriores. Montenegro não assinou todas as facturas. Mas escolheu conduzir esta privatização e tem de responder pelas condições que aceitar.

O Governo acredita que dividendos futuros e valorização das acções permitirão recuperar o investimento público até 2040. Pode acontecer. Mas uma expectativa não é uma garantia, e quinze anos de espera não cabem numa manchete triunfal.24noticias.sapo

Não preciso de chamar corrupção ao que não está provado. Basta exigir responsabilidade pelo que está anunciado.

Quero saber quanto recebemos efectivamente, quanto arriscamos, que obrigações permanecem e quem responderá se as previsões falharem. Quero também perceber por que razão este negócio serve melhor os contribuintes do que as alternativas.

Há 38 anos que vivo com as consequências das minhas decisões empresariais. Na política, gostaria de encontrar a mesma disciplina.

Porque, quando o dinheiro é nosso, o Governo não tem o direito de tratar previsões como recibos.

Nota: o autor não adere ao novo acordo ortográfico