As Mãos do Tempo

Quando estamos a viver um momento de dor, parece que ele nunca vai passar.

A tristeza ocupa todos os lugares dentro de nós e o amanhã parece apenas uma continuação daquilo que hoje ainda nos dói.

É assim a dor. Quando chega, não sabe falar baixo. Entra sem pedir licença e faz-nos acreditar que será para sempre. Que nunca mais voltaremos a sorrir da mesma maneira. Que aquela ferida ficará aberta para o resto da vida.

Mas o tempo tem mãos que não vemos.

Devagar, quase em silêncio, vai tocando aquilo que doeu. Não apaga o que aconteceu, nem nos devolve aquilo que perdemos. Apenas ensina o coração a respirar à volta da ferida.

E um dia, sem percebermos quando começou, acordamos e já dói um pouco menos. Depois, menos ainda. Até que voltamos a reparar na luz que entra pela janela, numa canção que nos faz sorrir, no abraço de alguém, numa flor à beira do caminho. A vida regressa assim: devagar.

Não bate à porta anunciando que voltou. Entra pelas pequenas frestas que a dor deixou abertas e, pouco a pouco, começa novamente a morar em nós.

Por isso, se hoje te dói, não exijas de ti a pressa de ficar bem. Não obrigues o coração a chegar amanhã quando ele ainda está a aprender a atravessar o dia de hoje. Há dores que parecem eternas apenas porque ainda estamos dentro delas.

Mas nenhuma noite dura para sempre. Há sempre um lugar no horizonte onde a luz começa outra vez.

 

 

O Sentido das Palavras

Carlos Cabrita

2026