A família também é feita de regressos

Tenho 72 anos. Tenho duas filhas e uma neta. Durante grande parte da minha vida, a minha casa esteve cheia. Cheia de vozes, de passos apressados, de portas a abrir e a fechar, de panelas ao lume, de brinquedos pelo chão e de fotografias em cada parede.

Hoje continua a ser um casarão. Mas é um casarão vazio.

Não perdi a minha casa. Pelo contrário: continuo nela, rodeado pelos meus móveis, pelas minhas coisas, pelas fotografias de tantos anos. Sei onde está cada chávena, cada livro, cada ferramenta. Reconheço o som dos passos no soalho, o ranger das portas, a luz que entra em cada divisão ao longo do dia. Mas, por vezes, pergunto-me se uma casa continua verdadeiramente a ser casa quando já não há ninguém com quem a partilhar.

Há quartos que já quase não abro. Há cadeiras onde ninguém se senta. Há pratos guardados há tanto tempo que parecem pertencer a outra vida. Na cozinha, ainda faço algumas refeições simples, mas já não cozinho como antigamente. Para quê preparar um grande tacho de comida, se à mesa está apenas um lugar ocupado?

Ainda me lembro dos domingos em família. Das conversas que se prolongavam sem pressa, dos risos, das pequenas discussões e das crianças a correr de um lado para o outro. Dos saltos para a piscina e dos passeios de carro domingo à tarde

Agora, o silêncio tem outro peso.

As minhas filhas telefonam quando podem. A minha neta aparece de vez em quando, quando a vida, os estudos, os amigos e os compromissos lhe deixam tempo. Eu compreendo. Todos têm as suas rotinas, as suas preocupações e uma pressa que parece não acabar. Não quero que pensem que escrevo isto para apontar culpas. Não é uma acusação. É apenas uma verdade que muitos homens da minha idade conhecem bem: é possível viver numa casa grande e, ainda assim, sentir que se ocupa pouco espaço na vida dos outros.

Leio os meus livros. Vejo televisão. Arrumo gavetas que já estavam arrumadas. Dou pequenas voltas pela casa, como se estivesse a verificar se tudo continua no lugar. Às vezes trato das plantas, outras vezes faço uma pequena reparação que podia esperar. Não é que falte trabalho; falta alguém a quem contar que a torneira já não pinga, que consegui encontrar uma fotografia antiga no fundo de uma gaveta.

Há dias em que o telefone toca e o coração acelera um pouco. Pode ser uma filha. Pode ser a minha neta. Pode ser alguém que se lembrou de mim. Mas, muitas vezes, é apenas publicidade, uma chamada enganadora ou um número desconhecido. Por vezes fico tentado a dar conversa a essa gente só para poder falar com alguém durante um bocado. E o silêncio volta a ocupar a casa inteira.

Dizem que envelhecer em casa é uma sorte. Talvez seja. Tenho a minha autonomia, as minhas memórias, os meus hábitos e a liberdade de abrir a porta quando quero. Mas envelhecer em casa não deveria significar envelhecer abandonado à rotina, aos medicamentos e às paredes que antes ouviram tanta vida.

A solidão não é apenas não ter companhia. A solidão é não haver ninguém a perguntar como foi o nosso dia. É não ter com quem beber um café sem olhar para o relógio. É saber que, se alguma coisa acontecer, talvez ninguém perceba logo. É sentir que a vida continua para todos, enquanto a nossa parece ficar parada no mesmo corredor, na mesma sala, na mesma cadeira.

 

Às gerações mais novas deixo apenas este pedido: não esperem que seja tarde para regressar. Telefonem. Façam uma visita sem motivo especial. Levem os filhos e os netos. Sentem-se à mesa. Ouçam as histórias, mesmo as repetidas. Perguntem pelas fotografias, pelas receitas, pelas cicatrizes e pelos sonhos que ficaram por cumprir.

A família não existe apenas para os aniversários, os almoços de Natal ou as fotografias felizes. A família também existe para os dias comuns. Para os dias em que alguém precisa apenas de ouvir uma voz conhecida dentro de casa.

Porque um casarão pode parecer uma riqueza. Mas, quando falta afecto, presença e partilha, pode tornar-se no lugar mais vazio do mundo.

O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico.