Portugal passa a vida a orgulhar-se do talento que forma e, ao mesmo tempo, a facilitar a sua saída.
É uma espécie de país-escola: ensina, prepara, afina competências, e depois vê partir muitos dos que mais podiam ajudar a mudar o próprio sistema.
A contradição é antiga, mas tornou-se mais visível numa economia que já não vive apenas de braços, vive de cérebros — e esses, cada vez mais, arrumam a mala.
A saída de emigrantes qualificados tem sido descrita como um fenómeno preocupante, com impacto no crescimento potencial e na retenção de capital humano.
Há uma verdade que a retórica política prefere empurrar para o rodapé: formar custa, perder custa mais.
O país financia escolas, universidades e estágios, mas oferece frequentemente salários curtos, carreiras incertas e uma mobilidade social demasiadas vezes bloqueada. Depois admira-se de que um engenheiro, uma investigadora ou um médico procurem noutro sítio aquilo que aqui lhes é prometido em discursos e negado em contratos.
Os estudos recentes apontam para um desfasamento persistente entre a qualificação dos jovens portugueses e as condições que encontram no mercado de trabalho nacional.
A ironia é que Portugal precisa exactamente do que mais expulsa.
Precisa de investigadores para inovar, de técnicos para industrializar, de quadros para internacionalizar, de gente jovem para renovar a demografia e a produtividade. Mas continua a tratar o talento como um recurso abundante, quase automático, quando na verdade é frágil, escasso e, sobretudo, móvel.
Quando o país não valoriza o mérito com continuidade e remuneração digna, o talento não desaparece: emigra. E, quando emigra, leva consigo conhecimento, iniciativa e futuro económico.
Não se trata de dramatizar a mobilidade nem de demonizar quem parte. Partir pode ser uma escolha legítima, formativa e até saudável.
O problema começa quando a partida deixa de ser oportunidade e passa a ser rotina; quando sair é a solução racional para demasiados jovens qualificados; quando o regresso parece menos plausível do que a partida.
Os dados do Banco de Portugal mostram que a emigração jovem portuguesa é hoje mais qualificada do que no passado, ainda que a maior parte dos emigrantes continue a não ter ensino superior, o que confirma a complexidade do fenómeno.
No fundo, o paradoxo é este: Portugal quer parecer país de futuro, mas continua a funcionar muitas vezes como país de passagem. E um país de passagem pode até formar grandes profissionais; o difícil é fazê-los ficar.
Enquanto não houver uma política séria de salários, carreira, habitação e mobilidade social, continuaremos a produzir excelência para exportação e a chamar isso, com alguma ironia, “competitividade”.
Estadista precisa-se.
O autor não aderiu ao novo acordo ortográfico


