Combater a Pobreza: começa em ti

Celebrámos no passado dia 17 de Outubro, o dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, que tem a sua origem na acção levada a cabo pelo já falecido Padre Joseph Wresinski (1917-1988), fundador do movimento “Agir tous pour la dignité Quart monde“, que juntou mais de cem mil pessoas para inaugurar uma placa de homenagem às vítimas da pobreza, da fome, da violência e do medo, em 1987, na Praça dos Direitos Humanos e das Liberdades, em Paris, França.

Quer as causas, quer as formas de pobreza assumem hoje, principalmente na Europa, aspetos diferentes daquelas do início do século XX, ou mesmo já dos finais do mesmo século, e também hoje, nos inícios deste século XXI, que nos é dado viver. Tal não significa que também na Europa e em muitas partes do Globo, não persistam formas de pobreza severas e de todos os tempos, tais como a fome, a falta de cuidados primários de saúde, a falta de acesso ao ensino, falta de digna habitação, o desrespeito pela dignidade da pessoa humana, direitos laborais, entre outras.

É necessário continuar a lutar para as erradicar, sobretudo através de políticas que coloquem o ser humano e a sua dignidade em primeiro lugar. Hoje assistimos, nas sociedades ocidentais, onde a qualidade de vida melhorou de forma extraordinária, bastaria uma breve análise histórica para o comprovar, a um aumento do número dos pobres e como consequência na incapacidade de adquirir uma habitação digna. Uma das suas causas é claramente a especulação, isto em termos, técnicos, dito de outro modo, a ganância e o oportunismo. Os salários não acompanham o custo de vida e nem podem nem conseguem acompanhar a especulação. Importa criar mecanismos que reponham a justiça no direito à habitação e o negócio imobiliário.

A partir do que vou escutando e vendo, em muitos casos é mesmo impossível, por exemplo na zona do nosso litoral, adquirir uma habitação, se pensarmos que a mais pequena casa começa com valores a partir dos duzentos mil euros para cima. E como temos de acrescentar custos com mobilidade (combustíveis e outros), alimentação, educação, saúde, então, percebemos que a maioria vive já na pobreza e um grande número no seu limiar.

Na sua Mensagem para o X Dia Mundial dos Pobres, a celebrar-se no próximo dia 15 de Novembro,  o Papa Leão recorda-nos que a «comunidade cristã não pode permanecer insensível perante tantos que hoje se encontram à porta e permanecem invisíveis para aqueles que estão fechados entre as suas paredes» (n.4). Importa não fazer, como se diz, “vista grossa” aos pobres e mesmo silenciá-los, mas escutar o seu apelo e tornar visíveis os seus anseios e direitos.

Para além das razões e causas da pobreza serem complexas, muitas e variáveis, mas quase todas identificáveis, importa referir a maior e mais profunda, mas também a menos referida e considerada, a falta de conversão do coração de cada um de nós, a transformação do nosso coração aberto aos outros, disponível para os outros e para a partilha e a caridade. São necessárias todas as estratégias e formas políticas e técnicas para combater a pobreza, mas se não começar na mudança interior de cada um, as estruturas não poderão mudar.