A vida poderia ser simples, mas não é.
Chega como um sopro inquieto, trazendo nas mãos o peso invisível do que ainda não sabemos ser. Poderíamos apenas sentir, sem pedir explicações ao coração, sem tentar prender o mistério em palavras. Poderíamos amar como quem se entrega ao mar, sem contar as ondas, sem temer a maré que um dia recua.
Poderíamos existir leves, como quem caminha descalço dentro de si, sem o ruído constante das escolhas a ferir o silêncio. Mas a vida prefere ensinar-nos em espiral. Conduz-nos por labirintos onde nos perdemos para, mais tarde, nos reconhecermos. Dá-nos dias que pesam nos ombros e noites que falam baixinho à alma, pedindo escuta e coragem.
É nesse atravessar que a vida se revela profunda. Porque só quem conhece o caos aprende a desejar a paz com devoção. Só quem vive a incerteza descobre a coragem escondida no peito. Só quem se demora na complexidade aprende a ver beleza num gesto mínimo, num sorriso tardio, num instante que não pede nada além de presença.
A simplicidade não é ausência de dor. É um olhar que escolhe a ternura. Não é um caminho sem pedras, é a decisão de continuar, mesmo quando os pés sangram, sem perder a delicadeza do sentir.
Talvez a vida nunca seja simples. Mas pode ser leve, quando deixamos de resistir, quando aceitamos sentir, quando compreendemos que viver não é controlar, é confiar.
O Sentido das Palavras
Carlos Cabrita
2026


