Entrámos há poucos dias num novo ano, pelo menos no que diz respeito à cronologia, pois no seu conteúdo há muita coisa velha que continuamos a carregar neste ano de 2026. Todos nós, cada um de nós, ainda está marcado por esta e aquela situação, esta e aquela decisão, esta e aquela circunstância. Há uma continuidade não só temporal, mas existencial nas nossas vidas e alterar certas coisas, pelo menos algumas delas, não depende somente da nossa boa vontade, do nosso esforço e compromisso que, embora seja necessário, poderá não ser suficiente. No entanto, importa fazer a nossa parte. As mudanças que tantas vezes gostaríamos de ver no mundo, numa certa visão romântica e idealista que gostamos de cultivar, começam, pelo menos devem tornar-se exemplares, nas mudanças que precisamos de operar em nós. É preciso passar do ideal à realidade. Começar com coisas concretas, objetivas, pequenas, possíveis e de forma progressiva. Isto exige um exame sério sobre nós mesmos, levando a sério aquela máxima da antiguidade inscrita no templo de Delfos e sempre badalada: ‘conhece-te a ti mesmo’. Conhecer-se a si mesmo não é apenas o resultado de um olhar interior, uma espécie de arqueologia do ‘eu’, uma certa ‘escavação’ às zonas mais recônditas da nossa alma. Conhecemo-nos em ação, como dizia Don Giussani, se a memória não me atraiçoa. Isto significa que temos de estar vigilantes e atentos aos nossos modos de agir, de pensar, de realizar, de dizer, de nos expressar, mas sempre na relação com os outros. O conhecimento de si mesmo passa pela relação, sob pena de nos isolarmos e não sairmos de nós mesmos, porque o outro, o seu rosto, para usar um termo caro a Levinas, um termo poderoso, é também a possibilidade de nos explicarmos, de nos conhecermos, de nos dizermos e expressarmos e de nos solidarizarmos. Acabei de ler há dias o livro de memórias do famoso ator Anthony Hopkins (Editora Lua de Papel, 2025). Na sua escrita aparece um homem com um rosto, de carne e osso, com a sua vida e a sua história, atravessadas não apenas por sucessos, mas dramas e sofrimentos. Teve uma infância singela, mas sofrida, em Port Talbot, País de Gales, Reino Unido. As suas memórias dão-nos acesso a uma vida feita de vazio e alcoolismo, atravessada pelo desejo de reconhecimento, mas também assistimos à metamorfose de um homem transformado pelo amor, gerado pelo encontro com os outros. Esse é o seu maior feito, como ele reconhece. Que 2026 seja um ano em que não só queremos ver mudanças no mundo, mas sobretudo seja um ano em que se operam em nós as mudanças que precisamos e que resultam do conhecimento de nós próprios que nunca poderá dispensar os outros e o Outro, que assumiu, em Jesus de Nazaré, um rosto como o nosso.
Conhece-te a ti mesmo através dos outros


