No âmbito da Unidade Curricular Laboratório de Jornalismo III, que decorreu no segundo semestre letivo, Inês Gonçalves desenvolveu, em contexto académico, a reportagem abaixo sobre a abertura da Lagoa de Santo André ao mar, as dificuldades e a relação da população e dos pescadores com a Lagoa. E assim começa a sua reportagem:
Naquela noite mal conseguia dormir, tal a ânsia, o entusiasmo. Faltavam mais de duas horas para o sol nascer e já estava a caminho da lagoa de Santo André. “Estava um frio de rachar, quase não me conseguia mexer com tanta roupa que tinha vestida.” Tinha 12 anos, um jovem garoto, quando João Paulo teve de tomar uma decisão: continuar estudos ou começar a pescar. “A escolha era óbvia, nem precisei de pensar duas vezes.” No dia seguinte, lançou as redes pela primeira vez. Ficou para sempre com aquele «bichinho», mas hoje, diz que não conseguiria sobreviver se ainda dependesse da pesca.
A Lagoa de Santo André
Virando à direita na estrada principal que liga a Lagoa de Santo André à cidade encontra o Monte do Paio, onde começa o Percurso da Casa do Peixe. Quem tiver feito o percurso este ano teve quase a Lagoa aos seus pés. Terá visto as árvores, poços e arbustos completamente rodeados por água, numa verdadeira fusão entre a Lagoa e o rural. É difícil imaginar que há mais de 15 anos que tal não acontecia. Mais difícil ainda é pensar que esta Lagoa pode vir a desaparecer.
Percurso da Casa do Peixe
Uma certa mística parece envolver as águas da Lagoa, encantando as pessoas à sua volta. A onda de 1963 pode ter levado 17 vidas naquela noite, mas não levaram brilho nos olhos de Analídia. “Na altura, eu vi. Aquilo não dá para descrever, é uma bomba. Fui a correr, agarrei o meu pai e nunca mais o larguei. Fiquei literalmente colada. Ele tentou entrar, porque o meu primo agarrou-lhe os pés e ele teve de o soltar para não ficarem lá os dois”. Se não o tivesse feito, o pai de Analídia não teria voltado a sair. Ficou para sempre marcada por esse dia mas, ainda assim, o seu amor pela Lagoa não desapareceu. “Eu tenho memórias lindas, de quando era bem pequenininha. Lembro-me de ver os arbustos, a refletir nas águas paradas. E às vezes formava-se um tapete enorme, de quase um quilómetro, de umas florezinhas muito brancas, com muitas raízes, que vinham à superfície da Lagoa e que deitavam um perfume! Era tão lindo! Eu e as garotas gostávamos de remar sobre aquilo, porque os barcos deslizavam. Às vezes o remo ficava encalhado e alguém ia à água, mas éramos felizes!”, conta. Desde então, a Lagoa mudou drasticamente. A cada ano que passa, a vegetação que crescia no fundo da Lagoa vai desaparecendo, a água vai ficando mais suja e o peixe é cada vez menos.
Embora de inicialmente não partilhasse a paixão de João Paulo e vomitasse todos os dias, Carlos hoje não conseguia imaginar uma vida diferente. Começou a pescar na Lagoa aos 22 anos mas, antes disso já pescava em Sines, no mar. Tal como a sua prima Analídia, ainda se lembra de uma Lagoa muito diferente. “A Lagoa de Santo André antes era uma Lagoa. De verão, não tinha apenas água salgada, 60% era água doce, porque havia muitas nascentes. Agora já não. As ribeiras que correm já não são limpas, poluem a Lagoa. Antes, queríamos que viessem as cheias, porque era quando a enguia se mexia mais. Agora pelos vistos é o contrário, porque há muita poluição que vem agarrada a essas águas”, explica.
Frita, grelhada, em caldeirada ou em ensopado, a enguia é um dos peixes mais apreciados pela população local, tendo um festival gastronómico dedicado a ela. Durante três semanas no início do ano, vêm pessoas de todo o país degustar este prato tão significante para a comunidade. “Os restaurantes nesses fins-de-semana ficam a abarrotar, chegam a ter filas de espera!”, conta David Gorgulho, Presidente da Junta de Freguesia de Santo André. Este ano, aderiram à 9ª Edição do Festival da Enguia nove restaurantes. Mas, no próximo ano, não se sabe.
Quando começou a pescar, ainda se fazia o chinchorro, uma arte de pesca tradicional da Costa de Santo André. Enquanto os homens mais experientes lançavam e arrastavam as redes, Rogério andava no barco da “pujada”, a transportar o peixe. Apesar de defender a preservação da fauna local, Rogério acredita que o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas nada mais tem feito do que condenar o futuro da Lagoa de Santo André. “Desde que criaram a Reserva Natural, têm sido criadas muitas dificuldades aos pescadores, mas não se têm visto melhorias. Pelo contrário, só se vê a deterioração da Lagoa. Em lado nenhum se vê um barco de pesca com profissionais e com as limitações que nos impõem. Antes, já havia limites, mas ainda tínhamos muita liberdade. Nós fazíamos o defeso, depois da abertura da Lagoa, até que o peixe de escama se criasse e nunca faltou peixe! Nessa altura podíamos ter 60 redes, hoje só nos deixam ter 20. Este ano, no inverno, não pescámos nada de extraordinário e no mês de março nem sequer apanhámos enguias suficientes para pagar a despesa! Nós às vezes com 50 ou 60 redes apanhávamos quatro ou cinco enguias.”
Localizada numa pequena aldeia no Litoral Alentejano, a Reserva Natural das Lagoas de Santo André e da Sancha possui uma fauna e flora muito diversificada. Desde a enguia e peixe de escama a flamingos e galeirões, foram registadas mais de 300 espécies que habitam esta reserva. A lagoa da Sancha, em tempos, também teve um ecossistema muito importante. Hoje, praticamente não existe, e vários pescadores acreditam que esse pode vir a ser o destino da Lagoa de Santo André.
Abertura da Lagoa ao mar
Refém do ICNF e da Agência Portuguesa do Ambiente, a vida à volta da Lagoa de Santo André tem-se vindo a deteriorar e a abertura da Lagoa ao mar mostra-se essencial nesse aspeto.
“A Lagoa não pode ser aberta no dia que eles querem nem à hora que eles querem, só pode ser aberta com um trabalho feito como deve de ser e quando as condições climatéricas assim o exigem. Tirando isso, pouco ou nada há a fazer. Houve dois anos em que foi aberta, mas mal. Os pescadores alertaram mas não temos poder quase nenhum. O Estado é que manda”, lamenta João Paulo.
Se a Lagoa não entrar em contacto com o mar, deixa de haver peixe, porque a enguia não se reproduz lá dentro, reproduz-se no mar. Por isso, é preciso deixar que ela entre na Lagoa e se desenvolva”, explica João Paulo. Rogério acrescenta que, “nos últimos anos, o que tem acontecido nas aberturas é que a água do mar não chega ao fundo da Lagoa e não limpa, porque a zona da aberta está muito assoreada. Isso leva a que as plantas que nasciam aí e que oxigenavam a água desapareçam, o que pode ter consequências graves. Isto, devido à teimosia de algumas pessoas que não querem fazer um trabalho bem feito”, acrescenta Rogério, em relação à APA e ao ICNF.
Não foi uma ideia propositada, mas fez toda a diferença. Apesar de morar em Lisboa, Francisco apaixonou-se pela Costa de Santo André em criança. “Era um contraste enorme, entre passar o tempo todo fechado num prédio e poder andar sozinho à vontade, poder brincar na areia, andar da Lagoa para o mar e do mar para a Lagoa! Se calhar foi por isso que acabei por me interessar mais pelas questões ambientais, e prosseguir os estudos nesse caminho”, conta. Em 2021, dois dias depois da sua abertura, a Lagoa fechou-se. Nesse dia, Francisco estava na praia, com a família. “A ideia nem foi minha, foi de um dos rapazes. Tinha caído areia para a aberta, porque era muito estreita, e ficou logo tapado.” À força da mão, este grupo de rapazes conseguiu que a Lagoa ficasse aberta por mais um mês. “Nesse ano, foi enviado à APA um e-mail, a pedir que se abrisse a Lagoa outra vez, mas disseram-nos que era demasiado perigoso pôr lá uma máquina, porque havia rios de água. Nós conseguíamos andar lá a pé, não sei qual era o perigo”, comenta Carlos.
Os problemas têm sido vários ao longo dos anos, mas têm-se vindo a agravar ultimamente. Em 2023, a Lagoa chegou a ter de ser aberta três vezes e, dessas três vezes, a abertura falhou. Foi essa última gota de água. Descontente, a comunidade uniu-se e criou o Movimento Cívico da Defesa da Lagoa de Santo André. “O Movimento foi criado para que fosse possível fazer chegar às entidades responsáveis, nomeadamente a APA, o ICNF e o próprio Ministério do Ambiente, a opinião dos pescadores, numa só voz”, explica Rita Rio, porta-voz deste Movimento popular.
Rita diz que foram enviados à APA vários e-mails, em vários momentos, a pedir explicações acerca da abertura da Lagoa e a pedir que os pescadores fossem ouvidos. “Pescadores com 40, 50, até mesmo 60 anos de Lagoa conhecem-na e sabem muito bem identificar e reconhecer algumas dificuldades, que depois se vêm a verificar aquando da abertura. O conhecimento técnico e científico é extremamente importante, mas o conhecimento popular também”, apela.
No entanto, a resposta da APA não tem sido muito recetiva. “Embora tenha respondido a alguns dos e-mails, a resposta foi sempre de forma pouco disponível a ouvir os pescadores, sentido a sua opinião como uma crítica e não como uma mais-valia”, acrescenta.
«(…) afirmar que “na abertura da Lagoa têm, com frequência (?), falhado naqueles procedimentos, desperdiçando recursos públicos e pondo em risco a economia, a sanidade e o bem-estar da população residente” é de uma enorme injustiça e carece de fundamentação credível:
– Em que medida é que a atividade piscatória tem sido efetivamente afetada negativamente – e com frequência – por esta ação?
– Como é que tem sido posta em risco a sanidade e o bem-estar da população?
– Como é que se atua com um “acentuado distanciamento da população”, se todos os anos esta intervenção é antecipadamente divulgada publicamente, à qual assistem no local várias dezenas ou mesmo centenas de pessoas?
– Como se ousa afirmar que a forma como tem sido executada a abertura da lagoa negligencia todos os estudos efetuados relativamente aos procedimentos mais adequados a adotar?» (Agência Portuguesa do Ambiente via e-mail ao Movimento Cívico de Defesa da Lagoa de Santo André)
Memórias de uma terra esquecida
Mais que uma comunidade, a Costa de Santo André era uma família. “Era uma povoação muito alegre, tínhamos festas muito grandes. A caçada aos galeirões, em novembro, era uma coisa fabulosa, era lindo de se ver! A forma como partiam os barcos para a caçada, a organização, os pássaros, que eram aos milhares! Depois, no final, havia sempre bailes, com belos acordeonistas! Também tínhamos o São Romão, que ainda se celebra hoje. E havia ainda os carnavais, e até havia uma equipa de futebol, que era muito boa”, recorda Analídia.
Uma aldeia humilde, mas cheia de histórias, a Costa de Santo André sempre foi uma terra de pescadores. Antes de se construir o bairro principal, vivia-se nas dunas, em cabanas de colmo e caniço. Apesar de ter nascido em Lisboa, a sua alma está na Lagoa. A ideia era passear pelo Litoral Alentejano mas, no ano seguinte, Paula já lá construía casa. “Quando eu vim com o meu marido, conhecemos, o Ti Júlio, o pai do João Paulo. Ele tinha um bar em Melides, mas morava aqui na Lagoa, então, todos os dias, jantávamos lá e vínhamos a pé pela praia para aqui. Quando eles chegavam da pesca, traziam o peixe ainda vivo para a casa e nós cozíamos logo, com a água do mar! Era fantástico!”
Hoje, vê-se uma aldeia muito diferente. A caçada ao galeirão foi proibida com a criação da reserva natural. Ainda se celebra o São Romão, no mês de agosto, uma mera recordação do antigamente, quando a pobreza e a miséria não permitiam os transportes e a população do interior do Concelho ia à praia, no início do século XX. Outras festas já não existem. Quem para cá vem vê as ruínas do que já foi um hotel e vários restaurantes, bares, cafés e discotecas deixados ao abandono. A Costa de Santo André está cada vez mais isolada, mas o amor que a população tem por ela persiste.
Um momento de esperança
No início do ano, tanto a APA como o ICNF foram questionados sobre como seria feita a abertura este ano, mas só vieram a ter uma resposta em março. “A cerca de um mês da data a que costuma ser a abertura, a APA decidiu sair de cena, desresponsabilizar-se dessa situação. Nós, obviamente, não podíamos aceitar uma situação dessa a apenas um mês, porque não havia tempo útil para resolver as coisas de outra forma”, conta o Presidente da Junta de Freguesia. Foi neste momento que a população se uniu e fez uma manifestação contra a decisão da APA. “Nós achamos que era inconcebível! Falámos com os pescadores e eles acharam que seria mais um grande passo para a morte da Lagoa”, afirma Rita. Os resultados ainda se veem. A poucas horas antes da manifestação a APA fala. A abertura da Lagoa vai acontecer. Tomada a decisão, seguem-se reuniões. Os pescadores já não aceitam ser ignorados.
No entanto, ainda há um longo caminho a percorrer. Apesar de terem feito a abertura no local indicado pelos pescadores, que é a zona mais funda da Lagoa, ainda houve aspetos que podiam ter corrido melhor. “A abertura este ano ainda não foi ideal. foi muito interessante, no entanto a hora que os pescadores tinham determinado não foi a hora que a APA entendeu que seria. Os pescadores queriam que fosse aberta pelas 14h, 15h, quando a maré estava baixa, mas a APA decidiu abrir pelas 17h. Não foi perfeito, mas já foi um grande passo”, conta Rita.
No decorrer da investigação, tanto a APA como o ICNF foram contactados, a pedir esclarecimentos sobre o seu envolvimento na abertura da Lagoa de Santo André ao mar e sobre as restrições impostas aos pescadores, mas não foi dada nenhuma resposta.
Qual é a sua esperança para o futuro da Lagoa de Santo André?
“A esperança não é nenhuma. Não há jovens a aprender a pescar, a aprender a fazer redes. Ninguém está disposto a trabalhar quatro meses por ano. Esta profissão vai acabar.”- Rogério
“A esperança é muito ténue. Já está tudo com muita idade, não há gente jovem a entrar para a pesca. Quando os velhos acabarem, acaba a pesca.”- Carlos
“A esperança não é muita. Mas não é só de os trabalhos serem bem feitos. Se não houver invernos como antigamente, e que a Lagoa enchesse mais… Não tenho esperanças nenhumas de um futuro risonho.”- João Paulo
Reportagem de Inês Gonçalves
Publicada no Jornal “O Leme” nº 859 (número único de agosto 2024)


