COMO ERA ESPERADO

CRÓNICA DA QUOTIDIANA VIVÊNCIA

1 – Referimos em anterior crónica, que o conflito que grassa entre os Estados Unidos da América (EUA) e o Irão, consubstanciava-se basicamente numa luta entre o poder temporal (EUA) e o poder espiritual (Irão), como se sabe, governado por um regime teocrático.

Como resultado de uns quantos ataques mútuos e ao abrigo de outras tantas tréguas não cumpridas de parte a parte, o Irão veio anunciar aquilo que se esperava de uma Nação governada por um regime teocrático: uma mobilização massiva de trinta milhões de voluntários dispostos a combater o invasor.

É aqui que o tal poder do espiritual, se tenta sobrepor à supremacia material do exército dos EUA que, para vencerem esta batalha, terão de aniquilar aqueles infindáveis exércitos de gentio impreparado e quase desarmado, mas dispostos a dar a vida pelo seu Deus.

A evolução desta guerra, poderá ter episódios em tudo semelhantes aos vividos entre os exércitos americano e japonês, na II Grande Guerra Mundial, com o ataque japonês a Pearl Harbor, em 7 de dezembro de 1941, uma ofensiva surpresa da Marinha Imperial Japonesa contra a base naval dos EUA no Havaí.

 

2 – Se não forem alcançados a curto prazo, os acordos necessários a se evitar esse confronto direto, aquilo a que poderemos chamar de David contra Golias do nosso século, poder-se-ão repetir estes episódios então vividos e que estão a ser ponderados e equacionados pelos EUA, cujo Presidente afirmou há pouco tempo que, hoje em dia, será impensável utilizarem-se bombas atómicas contra populações em conflito.

Desconhecemos em que contexto relacional esta afirmações do Presidente Trump foram proferidas, mas analisando friamente a história, concluiremos que os EUA, foram, até aos dias de hoje, a única potência militar a utilizar esse tipo de armamento, precisamente contra as populações de Hiroshima, a 6 de agosto de 1945, e Nagasaki a 9 de agosto de 1945, resultando em mais de 110.000 a 200.000 mortes imediatas ou por radiação, forçando a rendição do Japão e o fim da Segunda Guerra Mundial.

Os ataques, que utilizaram as bombas ‘Little Boy’ e ‘Fat Man’, permanecem até aos dias de hoje, como as únicas utilizações do uso de armas nucleares em conflitos convencionais. 

 

3 – Se é que poderemos considerar como boas as intenções proferidas por Trump, face aos últimos e desacertados comportamentos que têm vindo a ser assumidos pelo Presidente do EUA, restam-nos dois caminhos passíveis de serem adotados pelos intervenientes no conflito: a celebração de um acordo de paz entre os beligerantes em confronto, ou um arrastar quase infindo de uma situação de conflito permanente entre as partes, com a posterior saída dos EUA do cenário de guerra, à semelhança do seu comportamento adotado no Afeganistão e posteriormente da Síria e do Iraque, hoje fortes bastiões da Al-Qaeda, fundada por Osama bin Laden e hoje sob a liderança de Seif al-Adel.

Esta segunda opção, representará um exponencial incremento do terrorismo à escala mundial, com os custos materiais e humanos facilmente previsíveis, da qual muito dificilmente a atual economia conseguirá sobreviver. Nunca um cenário de acordo entre os atuais beligerantes se revelou tão premente para ambas as partes em conflito direto e para o mundo no seu geral.

 

4 – Talvez esteja num horizonte relativamente próximo, o surgimento de um fator externo condicionante dos comportamentos dos EUA e Israel, nos conflitos ora desencadeados: as eleições, intercalares nos EUA e legislativas em Israel, que se preveem como altamente condicionantes das políticas futuras a serem seguidas pelos governos daqueles dois Estados.

Convirá aqui relembrar que, pouco tempo antes de Israel invadir e destruir quase totalmente a Faixa de Gaza, Benjamin Netanyahu, enfrentava um julgamento por corrupção que o poderia conduzir à prisão, e que nos EUA, previsivelmente irão ditar a perda de influência dos Republicanos nas duas Câmaras, Senado e Câmara dos Representantes, deixando Trump sem margem de manobra para continuar a sua política de aventureirismo que vem evidenciando a cada dia e com graves consequências para o mundo e a sua estabilidade económica e social.

 JOSÉ MANUEL CLARO