Enquanto os teus pais envelhecem, abraça-os com tempo. E deixa-os viver. Deixa-os envelhecer com o mesmo amor silencioso com que te sustentaram os primeiros passos, com que te apararam as quedas, com que te ensinaram a chamar o mundo pelo nome.
Deixa-os falar, mesmo quando a história já foi contada mil vezes. Por detrás de cada repetição há um pedido de presença, uma memória que treme para não morrer sozinha. Escuta-os com a mesma paciência com que eles escutaram as tuas perguntas sem fim.
Deixa-os vencer, porque tantas vezes fingiram perder só para te verem sorrir. Deixa-os sentar-se ao sol dos seus dias lentos, conviver com os amigos que resistiram ao tempo, pegar nos netos como quem segura o futuro com mãos cansadas.
E, acima de tudo, deixa-os viver. Faz da última parte do caminho um lugar de luz, onde não caminhem com medo nem solidão. Porque amar os pais no fim é regressar ao princípio do amor, é retribuir, com cuidado, cada gesto antigo, quando ainda eras apenas um coração pequeno a aprender o tamanho do mundo.
O sentido das palavras
Carlos Cabrita
2025


