CRÓNICA DA QUOTIDIANA VIVÊNCIA – José Manuel Claro
1 – Lá vai um, lá vão dois, três políticos a voar, um é do meu partido, outro é do teu, outro é de quem o apanhar. Talvez seja esta a maneira quiçá insólita de começar esta crónica que nos une quinzenalmente. É usual que eu utilize este espaço para uma análise das macro movimentações que o mundo está a sofrer e vos proponha um chamar de atenção para as suas consequências no nosso dia-a-dia imediato ou a médio prazo.
Contudo, as comemorações do 25 de novembro, data referenciada na nossa história recente, apesar de ser comemorativa de meio século do sucedido, será esse espaço temporal, que caracteriza a data como uma história que ainda cheira a fresco, como diria um qualquer historiador, porém, não lhe retirando a importância que os tempos já lhe atribuíram ou que ainda lhe venham a atribuir.
As comemorações oficiais e como tal públicas, centradas este ano na Assembleia da República, mostraram à evidência uma estratificação das águas em que se movem os partidos representados no Parlamento, com as suas divergentes análises da situação política vivida, divergência essa, salutar para o debate político.
2 – Não se poderá dizer que nos tivessem surpreendido os posicionamentos assumidos pelas diferentes bancadas partidárias representadas no hemiciclo. Em dia comemorativo de algo julgado importante para a nossa história recente, sucederam-se os discursos a favor e contra o ato comemorativo que se praticava na Casa da Democracia, de acordo com os ideários defendidos por cada bancada partidária, excetuando o incidente de percurso praticado pelo líder do CHEGA, ao retirar da grinalda de flores que ornamentava a tribuna de onde os oradores discursavam, os dois cravos vermelhos lá postos por outros representantes partidários que o antecederam no uso da palavra.
Quando diferentes analistas políticos insinuaram, nas suas análises, que com estas comemorações se estava a pretender reescrever a história, eis que um ato gratuito de mera traquinice política, desnudou a falta de preparação intelectual de que alguns políticos da nossa praça, vêm evidenciando, consubstanciada na falta de elevação comportamental quando na prática de atos políticos correntes. A tudo isto, terá de se adicionar a pré-campanha para a corrida presidencial que, diga-se em abono da verdade, não esclarece nada nem ninguém.
3 – Ao longo da nossa existência, atravessámos todas estas vivências do pré e pós período revolucionário e foi-nos dado observar diferentes posicionamentos de vários líderes políticos, alguns de elevada craveira intelectual hoje já desaparecidos do nosso convívio, condição essa que se reflete ainda hoje, no comportamento doutrinário partidário, assumido pelos grupos a que pertenceram.
No espectro político atual, assiste-se a um enfraquecimento programático partidário, facto que conduz, aqui e ali, ao aparecimento de uns quantos posicionamentos que à partida se entendem no panorama político português, mas cada vez mais se evidencia a falta de preparação intelectual dos seus promotores, que se alcandoraram muito rapidamente a posições de relevo democraticamente expressas, mas que por feitos praticados, como que caminham para igualmente rápido definhamento existencial enquanto atores políticos. Estaremos perante o surgimento de uma nova classe política a que poderíamos chamar de ‘cogumelo’, por aparecerem após uma forte borrasca e com o despontar do sol, mas possuírem uma existência efémera enquanto espécie.
4 – Entretanto, lá por fora, mas aqui bem perto de nós a paz no Médio Oriente está num impasse, aqui e acolá com uns fogachos bélicos que traduzem a condição de ativo do conflito entre Israel e a Palestina, como estando num banho-maria político e sem fim à vista.
Quanto à guerra que se trava na Europa, sucedem-se as reuniões de líderes, numa azáfama que diríamos em espiral, nas quais cada interveniente externo ao conflito direto, vai defendendo em primeiro lugar as suas posições e os seus interesses comerciais, em detrimento do alcançar-se uma paz justa, tanto quanto será possível no cenário definido pelos interesses manifestados por ambos os beligerantes. Gostaríamos, nesta quadra de paz e amor que se aproxima, podermos comentar, se não o fim imediato do conflito, pelo menos um cessar fogo que nos permitisse um olhar sobre a situação sob um prisma não militarizado, facto esse que conduziria num curto espaço de tempo, ao início do sarar das feridas sociais sempre inerentes a um conflito desta natureza.
JOSÉ MANUEL CLARO


