Faz alguns anos fiz voluntariado na ala de Cuidados Paliativos de um hospital. Entrei ali para dar um pouco do meu tempo e saí com a alma transformada. Percebi que naquele lugar onde a vida se torna tão frágil, o que importa não são os grandes gestos, mas a presença simples, o silêncio que abraça e uma mão que se oferece devagar.
Naquela ala descobri que há despedidas que não gritam, apenas murmuram. Quando alguém me estendia a mão, não era força que procurava, era companhia. Era a certeza de que, naquele instante breve, o mundo não o abandonava. Havia dedos que agarravam os meus como quem segura a borda da vida, num medo manso a pedir: não me deixes ir sozinho.
E nesse toque que ardia de humanidade, eu percebia tudo, a história, as perdas, os sonhos que ficavam por acontecer. Aprendi que a maior dignidade não está em prolongar a vida, mas em suavizar o adeus. Por isso dei a minha mão. Porque ninguém deveria partir sem sentir que ainda pertence a alguém, nem que seja por um segundo, esse segundo onde o coração se deita e finalmente descansa.
O sentido das palavras
Carlos Cabrita
2025


