ENTREVISTA · BRUNO GONÇALVES PEREIRA, PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE SANTIAGO DO CACÉM
Um ano depois de tomar posse, Bruno Gonçalves Pereira recebeu “O Leme”. Falou do Auditório prometido há décadas, da habitação que o Concelho não constrói desde 1991, da pressão sobre os serviços públicos e do que exige a quem vem investir no território, a ambição de transformar Santiago do Cacém e Santo André num marco de desenvolvimento
Entrevista conduzida por Bertolino Campaniço
O Leme (OL) — Passou quase toda a vida profissional ligado à rádio, aos microfones e à coordenação de estações nacionais. Como se deu o salto da comunicação para a liderança de um município?
Presidente Bruno Pereira (BP) — Sempre morei cá. Fui forçado a estudar para Lisboa, porque não tínhamos ensino superior em Santiago do Cacém — coisa que está para deixar de acontecer. Formei-me em comunicação social e, mais tarde, em direito. Essa combinação pareceu a alguns natural para encabeçar o movimento independente. Obrigou-me a mudar de vida, porque a família continua em Lisboa. Mas o chamamento pela terra, e a convicção de que podíamos fazer melhor do que as administrações anteriores ao longo de 49 anos, levou um grupo de cidadãos a pegar no bem comum.
OL — Não deve ter sido fácil nos primeiros tempos.
BP — Os primeiros tempos são antes da eleição. Comecei a ausentar-me da RTP e de casa cerca de um ano antes. Sempre critiquei as oposições que aparecem nas vésperas das eleições a prometer fazer melhor. Nós fizemos um estudo no concelho todo, com mais de mil inquéritos respondidos, que nos deu a noção do que as pessoas queriam. O primeiro mandato devia, aliás, ter mais um ano: a adaptação que podia ser feita num ano, fizemo-la em três meses.
OL — Que ideias surgiram desse inquérito?
BP — Grande parte confirmou o que pensávamos, mas apareceram ideias novas — e as boas são as que custam pouco e facilitam muito a vida às pessoas. Por exemplo, 0s autocarros tinham dificuldade em passar junto do Mercado Municipal de Santiago do Cacém. Colocámos pinos flexíveis, oficializámos cinco lugares e invertemos sentidos. Fui lá simbolicamente colocar um pino e os motoristas começaram a bater palmas, e estavam fartos de apitar a carros mal estacionados. É preciso ouvir as pessoas e ter a humildade de readaptar propostas.
OL — Quais foram as maiores surpresas, boas e menos boas, deste primeiro ano?
BP — A melhor foi a parte humana. Quando entregamos uma casa a quem vivia debaixo de um telhado que tinha caído, as pessoas abraçam-nos e choram de alegria. É complicado gerir aquilo, porque fazemos em nome da população. Do lado negativo, há a politiquice. Ainda não tínhamos sido eleitos e já estávamos a ser insultados por pessoas que não conhecemos, sob a capa das redes sociais e com perfis falsos. Uma coisa são críticas construtivas, que agradecemos, outra é o insulto. Estamos ocupados demais para dar peso a isso.
OL — Venceu por margem escassa e não tem maioria. Como tem conseguido aprovar as suas propostas?
BP — Pensei que fosse mais complicado. Quando uma proposta é para o bem comum, a própria oposição tem dificuldade em justificá-lo perante os eleitores. E não temos aquela questão da paternidade das propostas: também votámos a favor de propostas da oposição. A medida mais exigente é a descida do IRS, que vai agora à Assembleia Municipal. Por cada 0,5% que se baixa, o orçamento perde cerca de 251 mil euros, num total de 55 milhões. Com uma gestão mais eficiente, compensa-se, e essa descida é para todos os contribuintes.
OL — As sessões da Assembleia Municipal vão passar a ser transmitidas online?
BP — Era a nossa ideia, e foi uma proposta do Chega, que não tivemos problema nenhum em acompanhar. O PCP e a CDU acabaram também por se associar. As sessões de Câmara são às 10 da manhã, hora a que a maior parte das pessoas está a trabalhar. Com a transmissão, quem não pode vir vê em direto ou em diferido.
OL — Ainda sobre a descida do IRS, um dos partidos diz que os mais pobres não são beneficiados.
BP — Não se pode devolver imposto a quem não o pagou. Quem recebe o ordenado mínimo não paga IRS, e ainda bem. O que propomos é baixar o IRS e, em simultâneo, manter e reforçar as medidas de apoio às franjas da população mais frágeis. Queremos chegar gradualmente aos 5% de redução.
OL — Prometeu na tomada de posse começar pelas grandes obras. Quais são hoje as prioridades?
BP — As piscinas e o auditório de Santo André. Todas as obras já têm terreno identificado, o que é muitas vezes uma das guerras iniciais. Quanto ao auditório, queremos chamar os técnicos para não incorrermos nos erros cometidos pelo país fora — auditórios encravados entre pavilhões de exposições, para aproveitar espaço e fundos, com 240 e poucos lugares. Falava há pouco com o professor Mário Primo, que já viu a promessa perder-se várias vezes. Só acreditará quando as obras começarem. Espero, aliás, que não venham dizer que é a obra de quem a prometeu durante 20 anos: é a obra de quem finalmente a vai fazer.
OL — Que auditório querem fazer?
BP — Um auditório com pelo menos 400 lugares, com possibilidade de redimensionar a sala para espetáculos mais pequenos. Teatro, música, dança e cinema em Santo André. Faz todo o sentido construir um auditório em Santo André. Existe procura! Mais de 40% de quem frequenta os equipamentos culturais de Santiago é proveniente de Santo André.
OL — Onde ficará exatamente?
BP — No centro da cidade, perto do liceu e do Centro de Atividades Pedagógicas Alda Guerreiro. Surgiram dois terrenos praticamente no mesmo sítio: um retangular, onde estão agora a ser construídas as casas ao abrigo do 1.º Direito[1], e outro mais quadrado e com mais área, junto à rotunda da bicicleta. A piscina ficará na zona desportiva, entre o pavilhão e o clube de ténis.
OL — Em que fase está o projeto e quanto custará?
BP — Há estudos prévios e há terreno. Existem muitos projetos feitos ao longo das décadas, alguns oferecidos gratuitamente quando tomámos posse — desde edifícios megalómanos que, nos cálculos do início dos anos 2000, iam já em mais de 14 milhões. Não se faz com menos de uns sete milhões. E não é só construir: precisa sempre de dez ou mais pessoas para funcionar, e a manutenção custará muito mais do que a construção, porque fica para sempre.
OL — Santo André foi uma cidade planeada. Que ordenamento prevê para os terrenos que vão ser vendidos?
BP — A manutenção da qualidade de vida e da vida em comunidade é uma linha vermelha. Os arruamentos têm de manter dimensão, tem de haver espaços verdes, e a altura não pode ultrapassar o razoável. Dentro da cidade não podemos apostar em moradias unifamiliares — é um erro. Temos de ter prédios com uma altura que não choque na paisagem: dois, três andares, quatro nalgum ponto mais baixo. Os terrenos em redor suportariam uma cidade de 120 mil habitantes e as infraestruturas aguentam cerca de 34 mil pessoas, o triplo das atuais. Não queremos isso: tem de ser faseado.
OL — Santo André é uma cidade que está localizada junto ao mar, mas não tem ligação direta. Qual a sua opinião sobre esta realidade?
BP — Santo André é a única cidade do país que está perto da praia, mas não tem ligação ao mar. Há uma estrada que vai até à praia, mas é uma coisa muito precária. Nós queremos mesmo um acesso direto: pode ser uma via simples, para as pessoas irem a pé, de bicicleta ou de trotinete. E queremos também uma saída de pesados que não obrigue a atravessar a cidade. Estamos em conversações com a Infraestruturas de Portugal, porque não faz sentido uma via rápida a atravessar parte de uma cidade. É uma intervenção central, e é isso que estamos a pedir.
OL — O que mais o preocupa no crescimento esperado para Santo André e arredores?
BP — Preocupa-me principalmente a pressão sobre os serviços públicos que esse crescimento vai gerar. Temos um hospital com 1.500 carros estacionados em média por dia, no entroncamento de uma estrada nacional com 70 anos de traçado. Os centros de saúde têm mais utentes do que deviam e as escolas já estão muito perto da lotação por turma.
OL — E em Santiago do Cacém, também já se nota os efeitos desse crescimento?
BP — Santiago já tem hora de ponta de manhã, à tarde e, parte dos dias, à hora de almoço. A cidade vai crescer primeiro na zona de São Sebastião, onde estavam previstos 300 a 400 fogos, e depois entre a cidade romana e a atual, o que praticamente duplica a malha urbana. A grande inovação será a construção de uma estrada circular que venha da estrada de Santo André e desvie o trânsito, sobretudo os pesados.
OL — Há lotes por construir há décadas nas freguesias rurais. Porquê?
BP — A maior parte das freguesias tem lotes prontos a lotear há 20 ou 30 anos, e nada foi feito. Há uma teoria, de que não costumo falar de boca cheia, segundo a qual não havia interesse dos executivos anteriores em que viesse para cá morar muito mais gente, e por uma razão óbvia: quem vem de fora vota de maneira diferente de quem cá esta. A teoria faz o seu sentido. Bloquear o desenvolvimento só para garantir a continuidade no poder é uma coisa muito mal feita, até porque se acaba por sair do poder na mesma, como saíram.
OL — E a habitação pública, qual o seu plano?
BP — Não há habitação pública municipal no Concelho de Santiago do Cacém desde 1991. Ora, como é que uma câmara se escuda a dizer que a habitação é competência do Estado Central? Se fosse munícipe, sentia-me defraudado. Vamos, pois, construir habitação pública municipal e, nas hastas públicas, os privados terão de deixar pelo menos um terço do empreendimento para custos controlados. O problema é que os custos não são baixos: um T2 fica entre 130 e 150 mil euros de construção real; um T3 pode ir dos 160 aos 200 mil.
OL — Tem defendido que as empresas que vêm investir no concelho devem deixar contrapartidas no território. Que contrapartidas são essas e com que meios podem ser exigidas?
BP — Tudo o que são projetos de interesse nacional são bem-vindos, desde que deixem valor no território, e não paguem apenas as taxas legalmente obrigatórias. Essas contrapartidas podem passar pela construção de equipamentos que fazem falta no Município? Por exemplo, quiseram trazer eólicas, e somos frontalmente contra — desde logo porque o transporte da energia se faz por via aérea e não subterrânea, coisa que em 2026 não se percebe. Perguntámos quais as vantagens para o concelho: 13.500 euros por megawatt. Perguntámos se as pessoas passariam a pagar menos luz: não, porque a energia entra na rede nacional. Então, qual o valor acrescentado que fica para a população?
OL — Como quase todos os municípios portugueses, Santiago do Cacém vive, em parte substancial, daquilo que o Orçamento do Estado lhe transfere. Gere um orçamento de 55 milhões de euros num território onde se concentram investimentos de dimensão nacional. A reivindicação de maiores verbas para as autarquias é antiga no Alentejo Litoral e atravessa executivos de todas as cores. Como é atualmente a relação com o Estado Central?
BP — Temos defendido sempre uma maior transferência de verbas para os orçamentos municipais. Mas, sendo um movimento de cidadãos, não somos um partido de protesto. Como costumo dizer, a diplomacia arranja mais estradas que o megafone. Fomos recebidos pela Infraestruturas de Portugal, S.A. ainda em campanha, o que nem sequer é normal com candidatos sem legitimidade de eleição. Dessa reunião resultou uma mesa cheia de promessas que antes não havia. Agora temos é de passar das palavras aos atos.
OL — Passou por rádios privadas e pela RTP, empresa pública que se gere como uma sociedade comercial. Já a Câmara não fixa os vencimentos que paga nem o ritmo a que contrata. Dentro dessas margens, consegue atrair e reter quadros técnicos?
BP — Toda a gente sabe a dificuldade que uma câmara tem em segurar talentos ou em ir buscá-los. Com a tabela de ordenados que há, temos técnicos cá há 30 ou 40 anos com vencimentos muito baixos em relação às responsabilidades. Eu estava habituado a empresas onde, decidida uma coisa de manhã, e na tarde desse dia começava-se logo a trabalhar. Nas câmaras é tudo mais lento — a legislação, os regulamentos, os procedimentos —, e não fazemos nada que não esteja regulamentarmente enquadrado. Foi uma das minhas frustrações iniciais. Em contrapartida, os colegas transcendem-se a montar uma feira, às horas que for preciso e com as horas extraordinárias já esgotadas, por puro sentido de serviço público.
OL — Para concluir, se tivesse que eleger uma única medida que marcasse o seu mandato, qual seria?
BP — Transformar as cidades de Santo André e a de Santiago do Cacém num marco de conhecimento.
Nota: a entrevista foi gravada em áudio e transcrita por meios automáticos. A versão aqui publicada foi condensada com apoio de ferramentas de inteligência artificial (Claude, Anthropic), revista e verificada pelos autores, a quem cabe a responsabilidade pelo texto final.
[1] Programa de Apoio ao Acesso à Habitação é o principal instrumento público de apoio à habitação em Portugal, criado pelo Decreto-Lei n.º 37/2018, de 4 de junho. Mais info. em: https://www.portaldahabitacao.pt/1.%C2%BA-direito


