Uma cadeia de erros consecutivos originou a recente tragédia ferroviária em Toledo, resultando na perda de dezenas de vidas humanas.
Num desabafo lúcido e emotivo, o marido de uma das vítimas ergueu a voz perante jornalistas e apresentou um testemunho da realidade – a esposa faleceu no trágico acidente, quando fazia a sua última viagem de trabalho antes de se reformar. Rodeado dos media, a testemunha falou sobre mais do que a perda pessoal, mas sobretudo da perda coletiva, da urgência desmedida em que a sociedade de hoje nos coloca, da sofreguidão de alcançar algo que se distancia dos valores mais elevados da vida – «Quero, acima de tudo, dizer que estes mortos são os mortos de toda a sociedade, do modelo social em que todos vivemos».
As palavras que hoje escrevo vão ao encontro desta reflexão necessária que é importante fazer sobre o “Modelo social”. Vivemos numa região que está nos holofotes do país pelo investimento dos grandes projetos. É necessário atrair investimento, é necessário obter lucros, é necessário avançar com projetos, é necessário criar centenas de postos de trabalho, é necessário construir acessos, é necessário fazer, criar, construir, alcançar. É necessário progredirmos, sim, é necessário desenvolvermos, mas sobretudo, garantirmos um crescimento equilibrado, termos emprego e condições de vida dignas para as famílias.
Naturalmente, boicotar o progresso não nos traz as respostas de que precisamos, mas a que custo estamos a acelerar? A que custo estamos a viver investimentos com planeamento adequado para protegermos o que mais sentido tem – a vida pessoal, a vida familiar, a vida em comunidade?
A nossa região vive uma viragem histórica com impactos a curto prazo. Deixamos de ser apenas uma região pacata no Alentejo, onde se vive com segurança e qualidade de vida, para nos transformarmos no epicentro da transição digital e energética. Será que a urgência da instalação de grandes projetos sem a garantia de infraestruturas adequadas para o aumento previsível da população e de centenas de novos postos de trabalho está a ditar regras que promovem o sacrifício da sustentabilidade e da coesão social?
Se aceitarmos que a pressa desmedida governe o território, sem concertação social, sem apoio das próprias multinacionais na compensação das populações, sem articulação com o governo central, descobriremos, tarde demais, que sacrificámos a alma e a paz que faziam deste território um dos mais seguros no país e talvez na Europa.
Que as famílias das vítimas do acidente de Toledo encontrem o amparo e a força necessária para suportar este momento de dor imensurável.
E nós, que estamos a tempo de repensar as urgências, que encontremos formas de reconsiderar os modelos de desenvolvimento.


