Ainda a propósito dos pobres, o Santo Padre afirma que Cristo: «Nos pobres […] ainda tem algo a dizer-nos» (Dilexit Te, n. 5). O Papa Leão também chamou a nossa atenção para o carácter multifacetado da pobreza (n.9). No passado dia 23 de outubro, fui ao Hospital do Litoral Alentejano para uma marcação. Dei-me conta que para o mesmo espaço onde estava entrou um senhor, numa cadeira de rodas, visivelmente debilitado, empurrada por uma gentil bombeira de uma corporação nossa vizinha. A bombeira foi fazer a admissãoda consulta do senhor, mas voltou dizendo, algo como isto: “Senhor J… temos de ir embora que o fisioterapeuta está de greve”. Por carácter, comentei com uma funcionária: “será possível que se trate alguém desta forma? Não seria de avisar previamente o utente que não haveria consulta?”. Resposta: “Não podemos avisar!”. Fiquei espantado, mesmo indignado. Para além dos custos vários, que têm a sua relevância, levanta-se a seguinte questão: qual a necessidade de submeter alguém doente, eventualmente com dores, a algo assim? Não estando em causa o direito à greve, resta a pergunta: tal direito pode estar acima do direito à saúde, pelo menos em determinadas condições? Deixo a questão, que é jurídica e política, para quem tem o dever de a pensar (e diria resolver), mas do ponto vista social e ético, de que as leis e a política não podem dispensar-se, todos temos o dever de reflectir e questionar. Para além de não ser razoável que não haja um mecanismo que respeite o direito à greve e o direito à saúde, acresce o facto grave, do ponto vista deontológico e ético, de que “não se possa avisar” o utente. Esta pobreza de atenção e cuidado para com o outro é grosseira, sem esquecer a pobreza desta pessoa, que representa tantas outras, sem voz, frágeis e dependentes. É também exemplar o que me chegou ao conhecimento: uma utente dirigiu-se ao nosso Pólo de Saúde de Santo André, no dia 24/10, com marcação de vacina para o famoso Covid-19, mas quando lá chegou estava tudo encerrado, sem qualquer aviso prévio, certamente não foi caso único. Não podemos fechar os olhos e ser indiferentes. É preciso encontrar caminhos e soluções que respeitem os direitos (e deveres) de todos. É difícil aceitar que quando se tratam de greves, o utente seja sempre o prejudicado, e não os primeiros responsáveis, e que não se encontrem outras formas de greve mais eficazes e eficientes sem que, permita-me a expressão, ‘seja sempre o mesmo a pagar’.
A pobreza ainda tem muito a ensinar-nos!


