Fátima Moita
No dia 18 de novembro, a Casa de Jovens “O Farol” comemorou um marco significativo, 25 anos de existência. Para celebrar esta ocasião especial, a Instituição organizou um animado almoço no dia 23, que foi marcado por muita alegria e espírito de confraternização.
A cerimónia contou com a presença de mais de trinta convidados, entre eles Sónia Gonçalves, Vereadora da Câmara Municipal de Santiago do Cacém, David Gorgulho, Presidente da Junta de Freguesia de Santo André, além da Direção do Centro Social Paroquial de Santa Maria, funcionárias e as jovens institucionalizadas.
O evento teve início às 11h30 com uma apresentação do Presidente do Centro Social, Abílio Raposo, que fez uma retrospetiva da história da Casa e abordou a sua situação atual. O Presidente explicou o número de utentes internos e falou sobre a situação económica da Instituição. Também adiantou que o novo Decreto-Lei irá alterar o número de utentes permitidos em cada casa, incluindo a possibilidade de casas mistas.
Neste texto refletimos sobre o passado e a transformação desta casa que começou em 1999. Fundada pelo saudoso Padre Manuel Malvar, do Centro Social Paroquial da Paróquia Santa Maria-CSPPSM e a Irmã Maria Fernanda, que já não está entre nós, da Congregação das Irmãs Franciscanas de Maria-FMM, com o apoio da Segurança Social, “O Farol” tem sido um refúgio para crianças e jovens em situações de vulnerabilidade. Esta Instituição não só ofereceu um ambiente seguro e familiar, mas também preparou muitas jovens para uma vida de sucesso e independência.
A Irmã Maria Fernanda, com sua experiência em lidar com famílias desestruturadas e Instituições de Acolhimento, e o Padre Manuel, com sua formação e sensibilidade na área social, visaram criar um ambiente familiar saudável que preparasse estas crianças para serem adultos bem-sucedidos. Após várias conversas entre os dois, acharam que no Litoral Alentejano havia a necessidade de se criar um Lar, para dar resposta às centenas de processos que existiam quer nas Comissões de Proteção de Menores, quer nos Tribunais e Segurança Social. Sendo o Centro Social Paroquial uma IPSS-Instituição Particular de Solidariedade Social, o Padre Manuel Malvar Presidente deste Centro na época, teve a oportunidade de se candidatar a um lar deste tipo em Vila Nova de Santo André, para bem das crianças, assim nasceu “O Farol”.
Durante estes 25 anos, “O Farol” enfrentou inúmeros desafios, desde a escassez de recursos até a difícil tarefa de reintegrar jovens em novas rotinas e estruturas. No entanto, os resultados positivos alcançados pelas crianças e jovens, muitos dos quais seguiram para o ensino superior e o mercado de trabalho, são testemunhos do impacto duradouro desta casa.
Numa primeira fase, no Bairro do Pinhal, “O Farol” tinha lugar para 12 crianças. Em finais de 2002 a necessidade de acolher mais crianças/jovens, levou a que o Lar se mudasse do Bairro do Pinhal para o Bairro Azul, tendo passado de 12 para 22 crianças.
Segundo a Irmã Maria da Conceição, das FMM que também esteve à frente do Farol de 1999 a 2010 “os principais desafios enfrentados na altura incluíam a escassez de recursos financeiros, as exigências da Segurança Social em relação ao pessoal e a integração das crianças/jovens em uma nova vida”.
A inauguração oficial ocorreu em 18 de novembro de 1999, e em dezembro chegou a primeira adolescente, que ficou na casa das Irmãs Franciscanas até que o “Farol” estivesse totalmente funcional.
“Entre muitas jovens acolhidas até 2010, cinco concluíram licenciaturas em áreas como Arquitetura, Tecnologias Bioanalíticas, Ciências Biomédicas, Enfermagem e Ciências da Comunicação. Outras completaram cursos profissionais, inserindo-se com sucesso no mercado de trabalho”, explica a Irmã Maria da Conceição e acrescenta “a casa também promoveu a formação religiosa, com muitas jovens a participar da catequese e dos escuteiros, sendo batizadas e fazendo a primeira comunhão”.
Todas as jovens que chegam ao “Farol”são encaminhadas pela CPCJ-Comissão de Proteção de Crianças e Jovens e pelos Tribunais, aplicando-se medidas de promoção e proteção em contexto de acolhimento residencial. “As jovens chegam à Instuição através da gestão de vagas da Segurança Social que entra em contato connosco para solicitar acolhimento quando temos vagas disponíveis, e não podemos recusar”, diz a atual Diretora, Sheila Olivença.
“Aceitamos jovens do Concelho e de todo o território nacional. Temos capacidade para acolher 22 jovens, dos 12 a 18 anos. Atualmente estão a viver na Casa 19 jovens. Naquela que passa a ser a sua casa, as jovens podem contactar com a família, receber visitas de familiares e passar períodos de férias e fins de semana. “Quando há situações graves por parte da família de maus tratos e outros muito graves, normalmente o Tribunal interdita as visitas, como medida de proteção para a criança/jovem”, diz a Diretora.
As jovens podem permanecer na Casa até aos 18 anos, mas as que estão a estudar ou em processo de autonomia podem permanecer na Instituição até aos 25 anos. Aquelas que estão na Universidade, estão mais longe, apenas vêm a casa em períodos de férias” explica Sheila Olivença.
Tal como nos anos anteriores a Instituição continua com resultados positivos com as jovens que passam por ali. Segundo a Responsável “muitas delas concluem o Ensino Secundário, Cursos Profissionais, ou seguem o Ensino Superior, e depois da conclusão dos cursos integram-se rapidamente no mercado de trabalho e alcançam a sua independência, há sempre algumas jovens mais dificeis que não se adaptam e voltam para as familias”. O maior desafio que enfrentam “é a reeducação de jovens que chegam com comportamentos desviantes, traumas e falta de educação devido a famílias desestruturadas. “Reeducar adolescentes de 16 ou 17 anos é significativamente mais difícil do que trabalhar com crianças mais novas”, diz a Sheila Olivença.
Em termos de Recursos Humanos, a Casa de Jovens “O Farol” é composta no total por 11 profissionais: uma Diretora Técnica, uma Técnica Social, uma Administrativa, sete Educadoras e uma Colaboradora no Departamento de lavandaria e costura. As jovens recebem acompanhamento psicológico externo conforme necessário.
Segundo Sheila Olivença atualmente a Instituição enfrenta diversas dificuldades, como falta de recursos humanos, insuficiência de financiamento “a comparticipação da Segurança Social infelizmente é muito baixa comparativamente ao custo médio por utente” e acrescenta, “precisamos de voluntários para atividades como dança, desporto, e para dar explicações em várias disciplinas além de matemática, também precisamos de voluntários para a manutenção da Casa. Temos parceiros que incluem serviços de oftalmologia e cabeleireiro, e também alguns descontos em estomatologia, de resto temos que pagar tudo”.
As jovens participam em diversas atividades, desde tarefas domésticas, vêem filmes, fazem trabalhos manuais, caminhadas, e colaboram nas atividades festivas da Casa, também têm aulas e explicações de matemática. Durante o verão, vão à praia e piscina entre muitas outras atividades.
Sheila Olivença apela à população para que ajude através de voluntariado com donativos de alimentos, produtos de higiene e material escolar, ou outros.
Abílio Raposo, Presidente do Centro Social Paroquial, está preocupado e diz, “não sabemos o futuro desta Casa, uma Casa muito importante, mas o futuro é uma incógnita. Se economicamente ela não é viável, se economicamente a Comunidade não participa, se as empresas locais não participam, provavelmente não poderemos dar apoio a estas meninas, que já muito, infelizmente muitas delas maltratadas pela própria família e se nós não tivermos possibilidade de as ajudar, acabamos por ter que as abandonar e é a Sociedade que as abandona”.
O Presidente apela para que ajudem o Farol “gasta-se dinheiro em tanta coisa supérflua, porque não oferecer um valor por mês, para ajudar uma menina” e adianta para que se faça uma campanha “o padrinho de uma menina, ajudando nas despesas dessa jovem”.
Abilio Raposo, admite um cenário não muito risonho para o “Farol”, se não houver um reforço nos apoios para o seu funcionamento, “para nós não encerrarmos aquela Casa é preciso uma ajuda muito forte da Comunidade, das empresas e dos particulares” diz o Presidente e conclui fazendo um convite a todos “quer ser padrinho de uma criança…”.
Para a Irmã Maria Conceição, o “Farol” é uma luz na vida de muitos, ajudando a moldar o futuro de jovens que hoje são adultos independentes e integrados na sociedade”.
Apesar de muitas dificuldades “O Farol” continua a sua caminhada. Hoje, como ontem, o grande desafio desta Casa e de todos quantos cá vivem e trabalham, é continuar a acolher num ambiente familiar, estas crianças e adolescentes que precisam de apoio e contribuir para formar as jovens com valores éticos e morais.
Ao longo dos anos, a Instituição acolheu centenas de crianças e jovens, muitas das quais alcançaram autonomia de vida, licenciaturas, e sucesso profissional e pessoal. Fomos conversar com duas dessas jovens que deixam aqui o seu testemunho.
1 – Testemunho de Vida
A minha jornada no “Farol”
Quando entrei no “Farol”, em Santo André, tinha apenas 10 anos. Era uma criança com muitas incertezas sobre o futuro, mas o que encontrei ali foi muito mais do que abrigo, comida e roupa lavada.
O “Farol” tornou-se o meu porto seguro, onde fui incentivada a estudar e a acreditar que o meu futuro poderia ser brilhante.
Com o apoio da Irmã Fernanda e de todas as monitoras, tive a oportunidade de tirar um curso profissional que me permitiu ingressar no mundo do trabalho. Este foi o primeiro passo para uma carreira que me levou, anos mais tarde, a realizar um dos meus maiores sonhos: tirar uma licenciatura. Assim aconteceu.
Hoje sou casada e tenho duas filhas. Olhando para trás, vejo o quanto o “Farol” e as pessoas que me apoiaram foram essenciais para o meu crescimento pessoal e profissional. Quero agradecer de coração à Irmã Fernanda e a todos a as monitoras que acreditaram em mim.
Quero também agradecer a três pessoas que, embora não pertençam ao “farol”, foram e são muito especiais para mim.: Mara, Licínio e Samuel.
Aos que estão hoje no “farol”, nunca desistam. Aproveitem cada oportunidade e lembrem-se: o esforço de hoje vai abrir portas que nem imaginam. O futuro está nas vossas mãos, e com determinação podem chegar muito longe.
(jovem que viveu na Casa de Jovens “O Farol” entre 1999 e 2010)
2 – Testemunho de Vida
A minha vida na Casa de Jovens “ O Farol”
Tudo na vida tem uma razão de ser, nada acontece por acaso. Sabem porquê?
Eu era uma menina cheia de medos e mal sabia falar.
Agradeço imensamente às pessoas que me apoiaram nesta jornada difícil, possibilitando que fosse acompanhada por profissionais de saúde para debelar a lacuna que tinha ao nível da fala.
Quando entrei no “Farol”, (com 9 anos) comecei logo a praticar desporto, e por isso agradeço à Paula Quintas e ao Luís Quintas. Vocês foram incríveis. Sem o vosso apoio eu não seria a pessoa que sou hoje.
O “Farol” sempre incentivou a prática desportiva, o que foi fundamental para a minha trajetória na Instituição.
A Irmã Fernanda apoio-me em todas as etapas da minha vida e sou grata por isso.
Agradeço também a todas as monitoras pela paciência que tiveram comigo. Eu era uma menina muito chorona e frágil, mas com o tempo tornei-me forte e lutadora.
Ao Padre Manuel deixo o meu reconhecimento pelas palavras de incentivo e pela força que sempre me deu através do desporto.
Hoje sou casada, tenho um filho e trabalho há quase 11 anos na área da geriatria, com formações especializadas neste campo.
Nunca desistam dos vossos sonhos!
Com força de vontade e determinação, somos sempre capazes.
Aproveitem todas as oportunidades que a Instituição vos oferece. Todos nós podemos conseguir.
Desistir, nunca!
(menina que viveu na Casa de Jovens “O Farol” entre 1999 e 2010)
Leme 866


