O ritmo da cidade no regresso às aulas

A azáfama começou, as correrias, as vozes altas e as risadas espontâneas e alegres de jovens e crianças já ecoam pelas ruas da nossa cidade. Na verdade, já tínhamos todos saudades desta alegria, da qual por vezes, cada um de nós se esqueceu ou que chegou mesmo a calar dentro de si, fruto do peso e da fadiga da vida. Mas importa renovar, trazer para fora e mesmo reconciliar-se consigo, com a sua história e com a sua trajectória, e, talvez em alguns casos, revisitar essa infância e deixar-se curar e transformar. Muitas crianças e jovens iniciaram por estes dias o seu regresso aos bancos da escola, reencontrando amigos, professores, auxiliares e tantos outros que colaboram nas escolas da nossa cidade e que dão o seu contributo para o seu bom funcionamento e para que os alunos tenham um desempenho de excelência. As sociedades actuais passaram por profundas transformações o que faz com que a Escola, e o meio educativo, seja hoje o espaço onde as crianças e os jovens passam a maior parte do seu tempo. Isso não pode deixar de nos questionar, pois, muitos saem de casa muito cedo com os seus pais, para regressarem ao final do dia, numa jornada contínua de trabalho e esforço intelectual e físico, entre aulas, actividades extra-curriculares, centros de explicações, centros de línguas, artes culturais e formativas (música, dança, ginástica, futebol,  catequese, escuteiros,). Quase não param, não fazem silêncio, não se encontram consigo e com os outros em outros momentos e tempos de lazer, de diálogo, de pescaria, tempo para não fazer nada. Sim, precisamos de tempo para não fazer nada. Simplesmente estar na presença uns dos outros, para nos olharmos, para nos cuidarmos, para nos escutarmos. Há quanto tempo não adormece o seu filho? Há quanto tempo não o olha nos olhos, o põe no seu colo, o beija e o abraça? Quando “gastaram tempo” juntos, parando e brincando? Há dias falava com uma mãe que partilhava comigo como era um pouco a sua vida e também a da sua filha, e como se desdobrava entre as suas difíceis obrigações profissionais e a gestão da vida familiar. Como sentia a necessidade de que houvesse mais ATL’s e capacidade de estes corresponderem mais à necessidade de tantos pais, que não tem onde deixar os seus filhos, como não tem como os ir levar e buscar. Uma necessidade e uma urgência real, à qual é preciso dar uma resposta aqui entre nós. No entanto, apesar da complexidade dos casos e das situações particulares, a que acresce o nosso modo de vida, parece-me que é cada vez mais urgente repensar, nas sociedades da abundância, o que fazemos com o tempo que nos é dado e para onde queremos caminhar. Que o regresso sempre desejado e querido às aulas, seja também oportunidade de repensar a escola, a sociedade e a vida.