O Caminho de Volta

De que adianta conquistarmos o mundo inteiro se, pelo caminho, nos perdermos de nós? Há quem passe a vida a subir montanhas sem reparar que deixou o coração esquecido no primeiro vale. Corre atrás de dias maiores, de sonhos mais altos, de lugares onde imagina encontrar a felicidade. E, quando finalmente chega ao cimo, descobre que a paisagem é imensa, mas a alma ficou para trás, à espera de que alguém volte para a buscar.

Vivemos tantas vezes com os olhos presos ao horizonte que deixamos de ver a beleza do caminho. Adiamos o abraço, a conversa sem pressa, o cheiro da terra molhada, o rumor do mar, a ternura de uma mão que procurava a nossa. Sem darmos por isso, tornamo-nos estrangeiros da própria vida.

Há conquistas que enchem as mãos e esvaziam o coração. Há vitórias que brilham como ouro ao sol, mas que, ao cair da noite, não conseguem iluminar a solidão que deixaram por dentro.

Talvez a vida nunca tenha sido uma corrida. Talvez tenha sido sempre um regresso. Um regresso àquilo que éramos antes de confundirmos sucesso com felicidade. À criança que ainda sabia maravilhar-se com uma borboleta, um pôr do sol ou um abraço dado sem pressa. Porque, quando a última tarde pousar sobre os nossos ombros, o tempo não nos perguntará quantos lugares conquistámos ou quão alto conseguimos chegar.

Perguntar-nos-á apenas se, no meio de tantos caminhos, nunca deixámos o coração para trás. Porque, no fim de tudo, a maior conquista nunca foi chegar mais longe. Foi chegar inteiro.

 

O Sentido das Palavras

Carlos Cabrita

2026