No Canto 8 da ‘Odisseia’ (Trad. Frederico Lourenço, Ed. Quetzal) é contada a traição de Afrodite, deusa do amor, com o perfeito e belo Ares. Afrodite estava prometida em casamento ao deus do fogo Hefesto, que era coxo e feio (8,270-365). Sabendo o deus e artesão do ferro da traição, pelo deus do Sol, quis apanhar os amantes em flagrante delito. Preparou uma armadilha, fingindo partir em viagem. Fez grossas correntes de aço, impossíveis de quebrar, para os prender em sua casa e na sua cama.
O plano correu como esperado e Hefesto não só os apanhou, como levou o caso aos deuses do Olimpo que se reuniram em sua casa, desvalorizando o acontecimento. É Posídon, senhor dos mares, quem intercede pelos amantes, prometendo a Hefesto que Ares pagaria uma recompensa pelo seu delito. Hefesto, contrariado, responde, referindo-se a Ares: «não vale de nada a garantia garantida por quem nada vale» (8, 350). Podia dar-se o caso de que o deus ficasse livre das correntes e da dívida. Posídon dá a sua palavra, caso o deus da guerra não pague a dívida, que ele próprio o faria. Assim, Hefesto os libertou.
A narrativa homérica, com as devidas diferenças, pode ajudar a compreender e interpretar algumas das situações noticiadas, nomeadamente, as que se referem a altos responsáveis do estado e não só, seja do presente, seja do passado. Parece que os mais altos responsáveis do Olimpo nem dão importância ao caso, nem lhe atribuem a gravidade que tem. Já os deuses infratores não mostram arrependimento, e não assumem qualquer responsabilidade pelos seus actos. É um outro que hipoteticamente se propõe a fazê-lo.
É razoável que Hefesto não possa fiar-se de Ares, pois de nada pode valer a garantia de quem nada vale, para usar a expressão de Homero. Fica a amarga sensação homérica de que no fim quem deve ser responsabilizado, é “libertado”, e que os deuses ‘se estão nas tintas’, permita-se a expressão, para a plebe e que aos senhores do Olimpo tudo é, e continua a ser, permitido.
Não estranhemos que neste conflito desigual entre o Olimpo e os mortais, se comece a clamar por um daqueles heróis, capaz de enfrentar os deuses e trazer alguma justiça aos humanos, quer se goste, quer não se goste, porque mesmo lá para os lados do Olimpo existem interesses em confronto e há quem queira que o desejado Odisseu (Ulisses) volte depressa a Ítaca e dê aos que pretendem tomar o seu trono aquilo que merecem.
Prezado leitor, como já só voltamos em Setembro, boas férias! Fica o convite para reler a ‘Odisseia’ e ainda o poema ‘Ítaca’ de Konstantinos Kaváfis.


