José Manuel Claro
Já o dia 26 nascera havia uma boa mão cheia de horas, quando o músico Isam Elias, um Palestiniano residente em Paris, atuando no Palco da Praia, tocou no seu piano, o último acorde do Festival de Músicas do Mundo (FMM) que, como que por magia, ressoou mar adentro.
Alguns corpos dos espetadores presentes, como que se abandonaram na Praia, procurando de imediato o retempero das forças que se foram esvaindo ao longo dos dez dias em que Sines recebeu um eclético mostruário de músicas para todos os gostos.
Será cedo para se fazer o necessário balanço de tudo o que se passou, mas numa primeira e muito sumária análise aos muitos artistas e estilos musicais que pisaram os palcos de Porto Covo, do Castelo, da Praia, do Pátio das Artes e do Auditório do Centro de Artes, salta de imediato à vista um Festival de sucesso, na senda de tantos outros que têm acontecido por estas paragens.
Culturalmente o FMM não se cingiu unicamente aos palcos instalados para o efeito, contando com uma parafernália de atividades paralelas, desde as exposições de arte, ateliês de música, workshops sobre plantas e de divulgação científica, apresentação de livros, sessões de cinema documental, contos para crianças, e uma feira do livro, do disco e do cartaz que obrigou a uma desmultiplicação por parte dos visitantes, esforço esse premiado com o inerente enriquecimento cultural e espiritual de cada um.
Foi para uma análise sumária a tudo isso que aconteceu, que levou a Organização do Festival, a convocar uma conferência de imprensa, que teve lugar no Museu de Sines, no passado dia 25 ao final da tarde, e onde foi abordado o desenrolar do XXVI FMM. Nessa conferência, o Presidente da Câmara Municipal de Sines, Álvaro Beijinha, reiterou o desejo de realizar no próximo ano a XXVII edição do festival.
Nesta breve troca de opiniões com a imprensa, foi referida pela Organização, a necessidade de uma certa contenção orçamental, que este ano deverá ficar abaixo dos dois milhões de euros.
A uma observação por parte de um jornalista, sobre a excessiva evidenciação da eletrónica na produção musical levada a palco pelos artistas, Carlos Seixas, responsável pela organização do certame, respondeu que essa situação é inerente à prática da música no mundo, e o Festival teria de traduzir essa evolução.
Contudo, este festival comportou em si um outro festival paralelo, chamemos-lhe assim, composto por espontâneos que se exibiram nas ruas da cidade, evidenciando a cada passo todo o seu talento e arte, em variados campos.
Pintores, artesãos, marionetistas, músicos a solo ou integrando combos circunstanciais, artistas circenses, viu-se de tudo um pouco, cativando a atenção dos passantes e permitindo diariamente uma imersão do visitante num ambiente extraordinário de comunicação entre os diferentes povos atraídos a Sines por estas alturas do FMM.
Voltando ao início da nossa crónica, e aquando do último som musical saído das colunas do Palco da Praia, fomos como que assaltados por uma estranha sensação nostálgica. Já em relação a tudo o que vivemos neste XXVI FMM, ao logo de praticamente dez dias de absorção permanente de costumes e hábitos vindos de terras distantes, como que simbolizados num retorno da diáspora portuguesa que, a partir do séc XV, e sob o comando de Vasco da Gama, deu novos mundos ao mundo.
O retorno da história, chegou até nós, nestes dias vividos em Porto Covo e Sines, sob a forma da música que nos foi mostrada pelos artistas que subiram aos palcos deste XXVI FMM, de boa memória. Viva o XXVII Festival das Músicas do Mundo!
Fotos: CMS


