Europa à beira da guerra

Por João Mendonça

Trump e Putin jogam com mísseis, nós com o comando da televisão. O afastamento das pessoas em relação à política internacional e à possibilidade real de guerra tornou-se, ele próprio, um fenómeno político.

Enquanto Presidentes imprevisíveis reconfiguram alianças, ameaçam inimigos e amigos, e jogam xadrez com territórios como a Gronelândia ou com equilíbrios frágeis no Médio Oriente, uma parte crescente da população escolhe simplesmente desligar.

Não é apenas cansaço: é uma espécie de fé laica na ideia de que “no fim há-de correr bem”, sem se saber porquê, nem como, nem graças a quem.

Temos um Presidente norte-americano que trata a política externa como negócio de ocasião, desvalorizando alianças históricas com a Europa e usando a força militar como argumento negocial.

Ao mesmo tempo, assistimos a uma militarização acelerada do discurso europeu: hospitais franceses a preparar-se para cenários de guerra, forças dinamarquesas posicionadas na Gronelândia, governos a falarem de reforço de defesa como prioridade absoluta.

No Médio Oriente, Israel afirma agir em legítima defesa enquanto multiplica operações que incendiariam a opinião pública mundial noutras épocas. USA mata descaradamente para obter mais uns poços de petróleo.

E, no entanto, fora dos círculos especializados, reina uma estranha indiferença.

Essa indiferença não nasce do desconhecimento total. As pessoas sabem vagamente que “há guerra na Ucrânia”, que “Putin tem os olhos postos na UE”, que “Trump voltou”, que “Israel está em guerra”, que “a NATO anda tensa”.

Mas o fluxo ininterrupto de notícias, análise, gritaria televisiva e polémica nas redes sociais produziu um efeito paradoxal: quanto mais informação existe, mais gente sente que nada pode entender nem influenciar.

Desligar a televisão, deixar de abrir jornais, evitar discussões à mesa tornou-se um mecanismo de defesa emocional.

O medo recalcado disfarça-se de normalidade: continua-se a trabalhar, a fazer compras on-line, a discutir futebol e séries, como se a história pudesse ser posta em pausa.

Há também um factor de conveniência moral. Pensar seriamente em guerra implica escolher lados, admitir responsabilidades, aceitar que decisões tomadas em nosso nome podem matar inocentes. É muito mais confortável imaginar que “os de cima” sabem o que fazem, que “os serviços de informação” terão tudo sob controlo, que a tecnologia evitará o pior.

Esta confiança difusa é quase religiosa: uma crença num deus obscuro chamado “sistema”, “mercado” ou “comunidade internacional”, que, no último minuto, impedirá a catástrofe.

Como qualquer crença, dispensa provas; basta o alívio momentâneo de não ter de pensar.

Mas a história é implacável com sociedades que se infantilizam politicamente.