CRÓNICA DA QUOTIDIANA VIVÊNCIA
1 – Expressão que no léxico português, significa estar entregue à própria sorte, será a melhor definição para o contexto internacional em que se move o relacionamento entre Países, tentando um reordenamento da ordem internacional estabelecida que, na melhor das perspetivas, passará a ter uma configuração bipartida, em substituição da que se gerou na segunda metade do século XX, em que o mundo geopolítico era como que governado por três blocos de influência: o Americano, o Russo e o Chinês. Com as modificações operadas no início deste século no contexto internacional, constatou-se que o Bloco Chinês alcançou uma preponderância económica sobre os outros dois blocos, preponderância essa que, com a ajuda de uma guerra que se trava entre a Rússia e a Ucrânia, tem estado lentamente a diluir a influência da Rússia enquanto bloco geoestratégico. Assim, o mundo caminha para um reordenamento das influências políticas, económicas e militares, em que em vez de três blocos, existirão apenas dois, o bloco Americano e o bloco Sino-Soviético.
2 – É precisamente nesta fase de reajustamento, que o mundo se encontra, mas numa fase ainda tão efervescente nos reordenamentos, que parece que ninguém se entende, que ninguém responde por nada e em que qualquer posição que uma qualquer das partes, obriga a consultas diplomáticas para se saber o quem é quem num determinado conflito. É o fim da gestão tripartida do mundo atual, que leva a que por vezes os blocos em confronto nem encontrem uma mesa e umas quantas cadeiras onde se possam sentar e trocarem uns pontos de vista sobre o que pretendem e a forma de o conseguirem.
Instituições como a ONU, a OTAN e tantas outras, nascidas no pós-II Grande Guerra, foram esvaziadas de conteúdo e influência o que, por si só, será a confissão pública da incapacidade dos atuais governantes do mundo, ou aspirantes a isso, em ocuparem os lugares de onde tentarão governar esse mesmo mundo.
3 – Assistimos nestes últimos dias a atos de perfeita criancice política que, não fora a perda de vidas originada, em tudo se assemelharia a um recreio de um qualquer ATL, em que as crianças dão aso ao que lhes vai na cabeça, chegando, porém, ao bom senso de não agredirem os colegas da outra sala. No plano internacional, para além da perda gratuita de vidas, sobreveio uma crise em que os seus mentores não pensaram quando a fomentaram, nem estão a conseguir uma saída airosa para a situação entretanto criada. Recorrendo aos nossos aforismos populares, encontramos um que traduzirá fielmente aquilo a que estamos a assistir: «Não cuspas para o ar, que pode cair-te em cima».
Duvidamos que os Estados Unidos da América (EUA), ao serem rebocados para um ataque ao Irão, por parte de Israel, pensassem nas consequências que daí poderiam advir, porque é notório o erro de cálculo cometido, em que não foram devidamente analisadas as anteriores intervenções por esse mundo fora, em que foi notória a vitória dos exércitos de génese espiritual sobre o exército dos EUA.
4 – A história não se repete no formalismo de que se possa revestir, mas aqui chegados, constatamos estarmos na antecâmara de um novo Tratado de Tordesilhas, aquele que foi celebrado entre os reinos de Portugal e de Espanha no século XV, em que o mundo era dividido em duas partes por um simples meridiano, cabendo cada uma das partes, aos reinos celebrantes do referido tratado. Temos para nós, que historicamente, este Tratado de Tordesilhas foi o mais extraordinário acordo a que dois reinos hegemónicos chegaram, ao longo de toda a nossa história universal. A similitude que se possa encontrar entre o atual estado de reordenamento da Ordem Mundial e o tratado então celebrado pelos reinos de Portugal e Castela, residirá no facto de o mundo ficar dividido em duas partes, só que em pleno século XXI, o bloco Sino-Soviético ficará com uma parte de leão na repartição do bolo. Será a reação, quase que diríamos desesperada, por parte dos EUA, que tenta arrastar a velha Europa para o olho do furacão destes conflitos, que salpicam o nosso mundo atual, mas a maior lucidez que a classe política europeia vem manifestando, tem tentado a todo o custo opor-se a esse ‘arrastar para a guerra’. Convirá aqui relembrar que economicamente, a soberania sobre as dívidas externas dos países, a dos EUA será uma das maiores se não a maior, está maioritariamente subscrita pela República Popular da China, facto esse que confere aos asiáticos, uma certa ascendência económica sobre o seu adversário direto. JOSÉ MANUEL CLARO


