DESPEDIDAS, POSSES E… GUERRAS

CRÓNICA DA QUOTIDIANA VIVÊNCIA

 1 – Se possível fosse radiografar através da escrita o que têm sido estes últimos tempos vividos pelos portugueses, obter-se-ia um resultado muito semelhante ao sintetizado no título desta crónica.

Chegado ao fim, o mandato de Marcelo Rebelo de Sousa, talvez ainda seja cedo para se historiar estes últimos dez anos do seu consulado presidencial, não na forma física como foi desempenhado, mas na substância política de que o mesmo se revestiu.

Para uma avaliação tanto quanto possível correta e isenta, será necessário o pousar das poeiras da história, coisa nem sempre fácil de se conseguir no imediato.

Com a saída de Marcelo do Palácio de Belém, outro inquilino se aprestou para ir ocupar a vaga institucional e como resultado do último ato eleitoral vivido no nosso País, António José Seguro.

2 – No dia 9 de março, o povo português assistiu como que a um render da guarda, com a tomada de posse do novo Presidente e o seu solene juramento feito na presença do atual Presidente da Assembleia da República, Aguiar Branco, juramento prestado sobre o exemplar oficial da Constituição da República Portuguesa.

Dia de festa no Palácio de Belém, com os atos simbólicos das despedidas do Presidente cessante e da chegada do novo inquilino que nos próximos cinco anos terá a dura tarefa da representação do Estado, enquanto figura cimeira do mesmo.

Se as despedidas são por norma tristes, as chegadas são feitas debaixo de uma atmosfera mais desanuviada e esperançosa.

Marcelo Rebelo de Sousa, o ‘Presidente dos Afetos’ como alguns historiadores já o epitetaram, fez jus a esse nome ao quebrar o protocolo por várias vezes neste seu último dia de consulado.

Talvez o momento que mais nos tocou, foi aquele em que à saída do Palácio de Belém, mesmo junto ao portão de acesso à rua e quando os elementos da sua Casa Militar, funções desempenhadas alternadamente por mulheres dos três ramos das Forças Armadas, se perfilaram em continência perante o Presidente cessante, este não se ficou pelo formalismo requerido pela situação e beijou cada uma das representantes militares, suas assessoras.

3 – Cerimónias protocolares cumpridas e o País como que retomou a rotina de um dia-a-dia algo incerto, fruto de uma conjuntura internacional que tarda em retomar os caminhos da paz e que em sentido contrário se vai confrontando com o belicismo de uns, o radicalismo de outros, o que vai arquitetando um cenário que não era visto desde o final da II Guerra Mundial.

A geopolítica das fontes energéticas tarda em encontrar uma estabilização forte e duradoura, o que tem obrigado os diferentes blocos mundiais a acertos quase constantes, principal motivo que está na base de quase todos os conflitos em curso.

Com o ataque militar perpetrado por Israel e pelos Estados Unidos da América (EUA) ao Irão, o Médio Oriente foi alvo de mais uma desestabilização da qual não se vê a curto prazo um fim imediato e sustentado. Na prática, a guerra agora iniciada, trata-se historicamente de uma guerra, na sua essência, do poder temporal contra o poder espiritual, conflito de extrema e dolorosa resolução, e no qual os EUA se viram várias vezes envolvidos no período pós-II Guerra, em várias situações e das quais nunca saíram vencedores.

4 – Pelo alinhamento político do nosso País e pelas bases militares postas ao serviço dos EUA, Portugal como que se vê arrastado para um conflito para o qual não está minimamente apetrechado, mas no qual poderá ser atingido pelo tipo de confronto utilizado pelas partes intervenientes, em que o terrorismo atinge aspetos de enorme relevância.

Numa tática de guerra baseada precisamente no terrorismo, o poder espiritual historicamente, sempre levou de vencida o poder temporal, sendo a última prova provada disso, o Afeganistão.

Convirá, o nosso Governo começar a acautelar politicamente o futuro imediato, não olvidando o Complexo Industrial de Sines, alvo apetecível de um qualquer confronto bélico entre os blocos antagónicos agora em convulsão, até porque faz parte integrante da ‘Nova Rota da Seda’, desenvolvida pela China, utilizando o Canal do Panamá. Haja paz, já que a guerra nunca nos levará a lado algum.     JOSÉ MANUEL CLARO