CRÓNICA DA QUOTIDIANA VIVÊNCIA
1 – Evocaram-se na passada semana, os quatro anos ao longo dos quais a Rússia e a Ucrânia resolveram dirimir pela força das armas, os seus limites geográficos ao longo da fronteira comum.
Supomos não ser necessário aqui trazer, os recuos e avanços de ambas as partes conjuntamente com os seus aliados, os enormes prejuízos que a condição de guerra ativa acarreta, não só para os beligerantes, como igualmente para todos aqueles Países que se perfilam como apoiantes de cada um dos lados da barricada. Assistiu-se nestes últimos dias a um corrupio de discursos, de reuniões, de manifestações públicas de intenções, mas raramente, muito raramente se falou em medidas concretas e objetivas para a construção de uma paz justa e duradoura.
Por ter entrado nos hábitos de vivência do bloco europeu, nota-se uma certa facilidade no lidar com a situação e até, como em tudo na vida, os mais otimistas começam a apregoar, ainda que timidamente, algumas vantagens para a velha Europa, resultantes deste conflito.
2 – A retirada ou diminuição do apoio dos Estados Unidos da América (EUA) à Ucrânia, veio provocar uma maior dinamização e um exponencial relançamento das indústrias de guerra da França e da Inglaterra, que passaram a ter uma fonte de escoamento para a sua produção, que se mantinha como que em ‘banho maria’, no contexto mundial. Politicamente, se bem olharmos para a situação, conseguiremos escrutinar como que uma certa aproximação da Inglaterra à CEE e que, logo no dia seguinte ao ‘brexit’, como que se arrependeu do que fez e só por uma questão de orgulho é que talvez ainda não tenha pedido a sua reintegração. Mas o orgulho, enquanto sentimento muito humano, poderá ser substituído, a qualquer momento e ao abrigo de uma necessidade oriunda daqueles lados da guerra, de um pedido de readmissão, tendo como base os superiores interesses da Europa enquanto bloco político, retomando e dando mais força aos princípios que norteiam a aglutinação dos Países, em torno da bandeira comum da CEE.
3 – Aqui chegados, constatamos a hipótese de pôr em prática a velha máxima de que: «não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe», e não deixaria de ser curioso que uma guerra longa, com um custo elevadíssimo tanto no campo material como humano, e de onde não se vislumbrava um qualquer benefício para a velha Europa, possa conduzir, por ínvios caminhos a um fortalecimento da aliança europeia e ao robustecimento da sua indústria de guerra.
A verificarem-se estes pressupostos, seria como que a Velha Europa a dar a volta por cima a uma situação fomentada pelas loucuras expansionistas de uns quantos, que se alcandoraram ao poder em certas nações, e que agora constatamos, não serem tão antagónicas como se faziam anunciar.
Portugal, em caso de conflito aberto, era dos países da Europa, que se veriam diretamente envolvidos no conflito e sem meios para se defender das investidas inimigas.
Para além de possuirmos uma porta de entrada energética para Europa, somos por acordos estabelecidos há muito, aliados dos EUA, que se têm servido a seu belo prazer, da base militar das Lajes, como placa giratória de toda uma logística agressiva com que tentam ir controlando o mundo, sem sucesso diga-se.
4 – Perante a ineficácia dos exércitos em obterem uma clara supremacia sobre o adversário, perante o clamoroso falhanço da diplomacia de ambos os blocos em confronto, talvez nos reste o recurso o um modo bem português de nos exprimirmos, em relação ao caso concreto da construção de uma barragem, o Alqueva, que veio alterar significativamente o modo de vida das populações do Sul.
Tal como a guerra na Ucrânia, a construção da barragem do Alqueva estava num impasse desde o ano de 1957. Até que, em 1994, um grupo de alentejanos se ‘alembrou’ de escrever no pontão que atravessava o Guadiana a célebre frase. «construam-me, porra!!!». O certo é que a barragem lá se construiu, com os benefícios de todos conhecidos.
Extrapolando, e como medida de recurso em desespero de causa, porque não enviarmos uma brigada de voluntários alentejanos que percorreriam a frente da batalha escrevendo em tudo o que era suporte possível, em russo e ucraniano, um: «parem a guerra, porra!!!». Não perdemos nada em tentar! JOSÉ MANUEL CLARO


