Entre o passado e o presente a sabedoria dos idosos

Ouvi-los é aprender, respeitá-los é crescer e valorizá-los é construir uma sociedade mais justa

O Dia do Idoso é comemorado a 1 de outubro. Esta data, instituída pela ONU, serve para a população refletir sobre a importância de valorizar e apoiar as pessoas mais velhas, bem como para defender os seus direitos humanos e celebrar as suas contribuições para a sociedade.

Com décadas de experiência, histórias de superação e uma sabedoria que não se aprende nos livros, são verdadeiros pilares da nossa sociedade. São eles que nos ligam ao passado, que nos mostram o valor da paciência, da resiliência e da dignidade.

Neste texto, damos voz a duas pessoas que, apesar da idade, contam as suas trajetórias profissionais, pessoais e humanas. Cada profissão carrega um mundo de memórias. Cada rosto, cada ruga, cada olhar profundo é um testemunho vivo de tempos que moldaram o presente.

António Maranhão, 76 anos, angolano de coração, partilha connosco a sua história com orgulho e emoção. Começou a trabalhar muito jovem, após deixar a escola. “Havia disciplina e respeito. Os patrões eram exigentes, e os trabalhadores respeitavam”, recorda. Ao chegar a Portugal, a fugir da guerra em Angola, sentiu liberdade, mas também preconceito, “chamavam-nos de ‘retornados’, mas eu era refugiado. Preferia a vida em África, onde vivíamos sem distinção de cor ou raça, mais unidos e solidários.”

Ao chegar a Portugal trabalhou como pedreiro, foi carpinteiro de cofragem, até ingressar na empresa, CNP-Companhia nacional Petroquímica, em Sines, como torneiro mecânico — profissão que exerceu por mais de 30 anos. Hoje, reformado, vive com tranquilidade e dignidade. A sua rotina inclui compras matinais, momentos de descanso e algumas tardes na ASAS-Academia Sénior de Artes e Saberes, onde participa nos ensaios de Cante Alentejano onde é elemnto do Grupo e ajuda como voluntário na dobragem do jornal “O Leme”. E ri-se…ao dizer “um angolano a cantar alentejano”, brinca António Maranhão, com o humor que o caracteriza.

Apesar de receios ocasionais, consequência de uma doença passada, a saúde agora está melhor. Sobre as novas tecnologias, lida bem com o telemóvel, embora use pouco a Internet: “só para pesquisar alguma coisa”, diz. O que mais sente falta são as visitas entre familiares e vizinhos, os convívios de antigamente. “Hoje as pessoas passeiam, mas não se visitam.” Gostava de ser lembrado como um bom amigo e deixa um conselho aos jovens: “Façam o que quiserem, mas com responsabilidade.”

Dona Maria das Dores, 80 anos, nascida em Braga, foi administrativa durante mais de quatro décadas. Trabalhou também como ama e balconista. Fala um pouco da sua caminhada.

Maria começou a trabalhar muito jovem. A sua mãe enviuvou cedo, e ela teve de deixar os estudos para ajudar em casa. Ainda assim, com muito esforço e determinação, conseguiu concluir a escola. “Estudava, mas também ajudava a minha mãe nas lidas da casa e nas limpezas de escadas que fazia, para ganhar um pouco mais”, recorda com orgulho.

Aos 15 anos, já trabalhava no balcão de uma retrosaria. “Gostava muito desta profissão, conversava bastante com os clientes”, conta Maria das Dores, com um sorriso nostálgico. Depois cuidou de crianças e como era tão gratificante estar com as crianças. Alguns anos depois, por influência de um tutor que não considerava a retrosaria uma profissão “de futuro”, foi encaminhada para uma grande empresa. O ambiente era acolhedor e os colegas tornaram-se todos seus amigos. “Foi lá que conheci o meu marido”, lembra com carinho. Trabalhou nessa empresa durante mais de 40 anos, lado a lado com o marido, que era tesoureiro, na mesma Empresa. E a vida foi andando, teve três filhos e seis netos que ajudou a cuidar “os meus netos já são homens,  não precisam de mim…” lamenta.

Hoje, reformada, leva uma vida simples mas ativa. Vai às compras, mantém-se disponível para ajudar as vizinhas sempre que pode e não perde o bom humor. “Já estou velhota, mas ainda faço muitas coisas. Já ajudo pouco os vizinhos, mas vou-me safando”, comenta com um sorriso. Com espírito crítico e vontade de participar, lamenta a falta de atividades de lazer durante o dia na cidade onde vive “Devia haver mais coisas abertas todo o dia. O que há não chega… Se fosse todos os dias, é que era bom. Todos nós precisamos de nos distrair.”

Apesar da idade, lida bem com as tecnologias. Tem uma página numa rede social e adapta-se com facilidade ao telemóvel, mostrando que continua curiosa e conectada ao mundo

“Olho para trás e vejo a riqueza de cada fase. Os filhos foram uma força, os netos, a família, os amigos, os colegas… tudo são recordações… O compromisso com o trabalho, o voluntariado, a pandemia que enfrentei — tudo isso forma os alicerces da vida que construí.”

O seu conselho aos jovens é direto e cheio de sabedoria: “Divirtam-se, estudem, valorizem a família, respeitem os mais velhos, aproveitem bem o vosso tempo, mas com muita responsabilidade.”

Mais do que o trabalho, os idosos são guardiões de valores. Falam de respeito, paciência, esforço e solidariedade. Criaram filhos e netos, enfrentaram crises, guerras, mudanças sociais e tecnológicas — e mesmo assim, mantêm a esperança. São testemunhas vivas de tempos de escassez e abundância, de repressão e liberdade, de silêncio e de voz.

A importância da família, da fé e da comunidade permanece viva. Muitos continuam ativos: participam em Grupos Culturais, colaboram com Associações, cuidam de jardins, cozinham para os vizinhos, ajudam em projetos locais e mantêm viva a chama da convivência.

No Dia dos Idosos (1 de outubro), celebramos não apenas a idade, mas a vida. Celebramos os que abriram caminhos, construíram pontes e deixaram marcas profundas na nossa história. Os que ensinaram sem livros, os que amaram sem medida, os que viveram com coragem. Entre os silêncios das casas antigas e os risos partilhados nos Centros de Convívio, nas Academias Séniores, etc, os idosos  continuam a ser pilares invisíveis da identidade local. São guardiões de histórias, de afetos e de uma sabedoria que não se aprende nos livros. São exemplos vivos de resiliência, trabalho e amor. Ouvi-los é aprender, respeitá-los é crescer e valorizá-los é construir uma sociedade mais justa, consciente e humana.