José Manuel Claro
Oficialmente Sua Alteza, o Rei FMM de Sines, chegou no passado dia 18 de julho a Porto Covo, tendo subido de imediato ao palco para saudar o povo que o aclamava.
«E veio a gente da gleba / Mais a gente que vivia do mar / Para enfeitar a cidade / E abrir-lhe as portas de par em par / No dia em que o rei fez anos / Houve arraial e foguetes no ar…», espiritualmente pareceu-nos ouvir estes versos cantados por José Cid, quando interpreta a canção ‘No dia em que o Rei fez anos’, e que traduzem o ambiente que se viveu e irá viver entre os dias 18 e 26 de julho em Porto Covo e em Sines.
Poderá desta forma pouco usual, começar a nossa crónica sobre o FMM de Sines que, na sua génese, em muito extravasa o conceito convencional de festival de música, e que uma vez consultado o seu vasto programa, depressa se concluirá que é um poderoso veículo cultural que vai muito para além das músicas oriundas das sete partidas do mundo, das diversas culturas por ele espalhadas, e que durante nove dias preenchem totalmente os seis palcos, e os espíritos das gentes que se deslocam para o presenciar.
De referir que este 25º FMM, em termos de espetáculo de palco, contará com 49 concertos, interpretados por artistas oriundos de 34 países, havendo a registar as estreias neste certame da Bolívia, Gabão, Guatemala, Jordânia, Indonésia (Java), e um estado em busca de reconhecimento, a Somalilândia.
Paralelamente, um completo programa de exposições de artes plásticas, lançamento e apresentação de livros, animação de rua, debates públicos, ateliês de gastronomia, contos infantis, oficinas de instrumentos e canto tradicional, concertos para bebés, uma feira do livro, do disco e do cartaz, e sessões de divulgação científica, fazem desta organização uma poderosa máquina de divulgação cultural.
Poder-se-á dizer, que este é um festival que contém em si uma parafernália de sectores e manifestações culturais a decorrerem em simultâneo, que o tornam eclético e muito difícil de ser igualado por outras organizações similares.
Quase uma semana antes do seu início, começou a chegar a Porto Covo, aquilo a que chamamos ‘a tribo’, um conjunto de pessoas estrangeiras, muitas delas vivendo em Portugal por opção, e que aproveitam a ajuda da música, para mostrarem ao mundo os seus talentos, saberes e porque não, igualmente o seu estilo de vida.
Grande parte deles, são oriundos das serranias do Sudoeste Alentejano, de Monchique e da Serra do Caldeirão, onde vivem como que radicados em grupos de interesse, em que a arte é cultivada como existência comunitária.
Todo este enquadramento, que privilegiamos na descrição do que é verdadeiramente o FMM de Sines, em que a música é ouvida e vivida com um verdadeiro espírito de aventura, será só por si, um enorme fator de destrinça relativamente aos festivais que proliferam por este mundo fora, nesta época do ano.
Desde o seu início, em finais do século passado, temos acompanhado a sua evolução enquanto certame cultural, mas certamente que os nossos leitores compreenderão que, para além da enorme valia dos elencos artísticos que sobem ao palco anualmente, e vista na sua globalidade, que nos seja permitida, mais uma vez a chamada de atenção para a envolvência humana que é proporcionada a todos aqueles que visitam o FMM de Sines, uma atmosfera de paz bem ritmada.
Na sexta-feira 18 de julho, pelas nove e meia da noite, o palco de Porto Covo iluminou-se, o conjunto espanhol Maestro Espada subiu a rampa de acesso ao tablado, ouviram-se os primeiros acordes saídos das potentes colunas direcionadas para o povo que aguardava o momento com alguma ansiedade, na Praça Marquês de Pombal.
Começava assim o Festival, com todo o arraial humanamente festivo que o acompanha, instalado ao longo das ruas de Porto Covo, onde nos cruzámos com artes circenses, combos exibindo-se aqui e ali, artesanato confecionado na hora e sob demanda do cliente, numa animação pouco vista por estas paragens nos restantes dias do ano.
Já a segunda-feira se tinha iniciado há algumas horas, quando o trio Ácido Pantera, artistas colombianos, agradeceram os últimos aplausos, as luzes do palco se apagaram, os corpos suados, cansados, mas desentorpecidos pelos ritmos ao som dos quais dançaram durante três dias, como que buscaram avidamente o merecido descanso.
Ainda nesse dia, haveria de se mudar o festival para Sines, porque lá para os lados da noite, ouvir-se-ão os primeiros acordes musicais, sob a curiosidade contemplativa da estátua de Vasco da Gama, o navegador que deu novos mundos ao mundo, assim como o FMM abre novos horizontes igualmente a esse mundo multifacetado, do numeroso gentio presente.
Bem-vindos ao 25º FMM de Sines, a música com espírito de aventura.
José Manuel Claro


