CARTA DE UM JOVEM AO SEU QUERIDO MUNDO

1 – Querido Mundo, espero que esta te encontre bem, por cá nós vamos andando menos mal.

Resolvi escrever-te porque pensei ser chegada a hora de te dizer aquilo que sei a teu respeito e o que penso da tua forma de viver e, já agora, para vermos em conjunto, o que poderemos fazer para ajudar a encontrar o caminho da paz e da fraternidade entre os gentios que te habitam.

Tenho um tio que trabalha lá pelas Nações Unidas e, disse-me a minha mãe, que até ocupa uma posição de relevo, mas que passa a vida de mãos e pés atados, porque aqueles rapazes do Conselho de Segurança, não o desamarram e até se fingem de surdos para não o ouvir.

Uma das últimas vezes que ele veio cá a casa, até confidenciou aos meus pais que no mundo existiam cerca de 27 guerras ativas, e eu bem o ouvi a carpir mágoas e desesperos pela situação de outros jovens como eu que, segundo ele, são as principais vítimas de toda esta bagunçada existente.

Aqui na minha rua moram uns quantos jovens vindos da Ucrânia, com quem por vezes eu me entretenho à porta de casa, ao final do dia, e acho-lhes piada porque até já sabem falar português e tudo, mas a minha mãe disse para eu não lhes falar da família e, muito menos perguntar pelo pai.

Quando as mães os chamam para dentro, ficam com um ar triste e quero crer que seja por causa daquela estúpida guerra que têm lá na terra deles e que lhes desfez a vida a que estavam habituados e lhes roubou os pais, de quem têm, naturalmente, muita saudade.

Quando fiz anos, convidei-os para a minha festa e notei algo triste na sua maneira de estar, principalmente quando o meu pai me entregou a prenda e cantámos os parabéns que, como sabes, é sempre o momento alto da festa, mas eles retraíram-se e ficaram pensativos.

Sei que nas outras guerras se passa o mesmo em relação aos outros rapazes e raparigas que, como eu, andavam na escola e tiveram de abandonar tudo para tentarem sobreviver no meio de mortos, feridos e estropiados. Querido Mundo, escrevo-te com a intenção que consigas ajudar-me a acabar com o sofrimento dos meus amigos e, estou certo de que terás uma vontade igual à minha.

Deste que gosta muito de ti e ainda te considera…

2 – Sei que o fraseado utilizado, deixa transparecer o vocabulário de um adolescente que de uma forma quiçá ingénua, se quer exprimir e fazer ouvir pelos mais velhos, acerca de qualquer coisa dos adultos, mas o rapaz que escreveu a carta acima referenciada, rapaz na casa dos catorze e esperançosos anos, vividos com alguns sonhos inculcados no seu espírito, teve a sorte de percorrer um trajeto de vida, daqueles a que a nossa sociedade designa por normal.

Porém, com o passar dos dias, esse percurso feito atém agora, dá sinais de caminhar para uma situação anómala e mais insustentável do que a do presente, em que todos nós olhamos sem confiança para quem nos governa a diferentes níveis.

À medida que este rapaz for assimilando conhecimento e cultura, a sua maneira de olhar para o querido Mundo dele, também se vai alterando e por este andar, não tardará a que ele seja visto como uma das partes beligerantes no conflito que originou a vinda dos agora seus vizinhos, para morarem na sua rua e frequentarem a sua escola.

3 – Curiosas, se olharmos para as manifestações estudantis que por cá se vão fazendo ao nível universitário, são as reivindicações feitas pelos protestantes que assentam a sua contestação na denúncia da hipocrisia dos governos europeus, em relação aos conflitos que se vão desenrolando bem perto das suas fronteiras.

Essa contestação, no futuro, englobará os agora ditos refugiados de guerra que, numa análise empírica, reclamarão no mundo que têm mais à mão, mais concretamente o País que os acolheu, onde passaram os últimos tempos das suas vidas e que, pelo andar dos tempos e as perspetivas de futuro, cada vez se poderá afirmar com alguma certeza, que será o nosso.

Quando terminou a Segunda Guerra Mundial, viveu-se por esta Europa um período de paz e prosperidade, que ajudou a acalmar a contestação de muitos dos refugiados de então e lhes facilitou a sua integração nos Países de acolhimento, mas atualmente, com os conflitos em curso em perfeito estado de crescimento, não tardará que seja chegada a hora em que o popular aforismo «casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão», tenha perfeito cabimento social, altura essa, em que não poderemos pedir responsabilidades seja a quem for, porque o mal estará feito!

Haja paz e amor entre os povos, respeitando as suas bases sociais, culturas, credos e sítios. Só temos um mundo… este onde vivemos.

Parem de comer pombas brancas, fritas, à refeição!

Jornal 855