Entrevista: Fernando Arriaga, Artista Plástico “Todas as obras são, cada uma à sua maneira, um desafio técnico”

Fátima Moita

Fernando Arriaga, 53 anos, nasceu nas Meãs do Campo, em Montemor-o-Velho, e vive em Santo André desde 1996. Estudou Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e, atualmente, é professor na Escola Secundária Poeta Al Berto, em Sines. Entre viagens, jardins que cultiva e longas caminhadas que o levam a descobrir novos lugares, encontrou também na pintura um território de expressão que, embora tardio, se revelou decisivo no seu percurso pessoal e artístico.

O Leme – Fale um pouco de si.

Fernando Arriaga – Chamo-me Fernando Arriaga e tenho 53 anos. Nasci nas Meãs do Campo, Montemor-o-velho, e vivo em Santo André desde 1996. Estudei filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Atualmente, leciono na Escola Secundária Poeta Al Berto, em Sines. Entre muitas outras coisas, gosto de viajar, de plantar jardins e de sair por aí em longas caminhadas.

L – Quando descobriu que tinha este gosto pelas artes?

F.A – Lembro-me de desenhar desde puto. Contudo, nunca pensei ser artista e muito menos pintor. Aconteceu. A minha primeira experiência em pintura foi em 2003, portanto, tinha eu 30 anos. Foi ali um mês e pouco, não durou mais do que isso, nem nunca mais voltei a pensar nisso. Voltei a pintar vinte anos depois, sem imaginar, contudo, que as coisas iriam tomar o rumo que tomaram. Resolvi agarrar esta possibilidade.

L – Com que materiais trabalha?

F.A – Eu comecei por utilizar apenas acrilico sobre tela, mas aos poucos fui integrando outros materiais. Atualmente, utilizo acrílico, argamassas, óxidos e outros materiais.

L – Trabalha com vários materiais, portanto. Há algum material que ainda não explorou, mas que sente que o chama?

  1. A. – A escolha dos materiais depende do conceito e das formas que quero explorar. Quero continuar a experimentar as potencialidades destes materiais, mas tenciono integrar outros em futuros trabalhos. A escolha dessses materiais dependerá daquilo que, entretanto, eu vier a desenvolver. Tenho algumas ideias, mas preciso fazer algumas experiências para ver como resultam.

L – Qual foi a obra mais desafiante tecnicamente que já criou?

F.A. – Todas as obras são, cada uma à sua maneira, um desafio técnico. Os trabalhos que eu faço são o resultado de um processo de experimentação, uma vez que não tenho formação específica. Vou fazendo, vou vendo o que resulta e vou integrando ou não de acordo com aquilo que eu pretendo mostrar. Nem sempre as coisas correm como eu as pensei e muitas ideias acabam por ser abandonadas ou reformuladas. Às vezes, é o processo que conduz o modo como a obra se desenvolve e isso também é estimulante porque nada está inteiramente definido à partida. O meu trabalho é também uma descoberta dos materiais, das suas potencialidades e limitações, assim como daquilo que sou capaz ou não de fazer. Sou muito exigente e também erro muito. Levo muito tempo até ao momento em que olho para a tela e digo: é isto!

L – Há para si um momento do dia em que sente o apelo da criatividade?

F.A. – Não, como eu tenho pintado em regime de empreitada, pinto sempre que me é possível, de manhã, de tarde, pela noite fora. Estabeleço um objetivo e procuro cumpri-lo. Como já disse, sou muito exigente e sofro quando não consigo atingir esse objetivo no tempo que eu acho que isso devia acontecer. Em consequênca, não páro. Às vezes, o trabalho torna-se muito duro quer fisica quer emocionalmente porque facilmente excedo os limites. Não durmo, não como, só penso naquilo. Perdi 4kg a preparar a minha última exposição.

L – Já teve as suas obras expostas em Santo André, Santiago do Cacém e Sines e um dos seus trabalhos mereceu o 1º lugar no III concurso de Pintura da Fundação Caixa Agricola Caixa Azul. Pode falar um pouco sobre estas suas experiências.

  1. A. – Tudo começou em 2023. Estava a passar uma fase difícil e resolvi usar a pintura como terapia. Nunca pensei expor. No entanto, resolvi pôr um quadro à venda no facebook e vendi-o quase imediatamente. Foi isso que me fez olhar para a pintura como uma nova possibilidade de trabalho e de realização. Entretanto, mostrei outro quadro no café de um amigo. Acabei por ser convidado para expor na Biblioteca de Santo André e comecei a pintar sem nenhum rumo claramente definido. Só aos poucos me fui apercebendo que aquilo que estava a pintar eram partes de mim. Essa consciência do tempo, da memória, da história, definiu-se ali. A exposição chamou-se “Há um lugar e um tempo, no curso do tempo”. Era sobre o tempo, o kronos e o Kairos, e o modo como definem o que somos. Entusiasmado com as reações positivas à exposição, resolvi concorrer ao prémio de pintura da Fundação Caixa Agricola, Caixa Azul e acabei por ganhar. Foi muito bom porque me fez acreditar. Entretanto, fui convidado para expor no auditório António Manuel Chainho. Tinha dois ou três quadros da exposição anterior, mas queria apresentar um trabalho completamente novo. A exposição chamou-se “TERRAmorfose”. A fonte de inspiração imediata foi uma viagem ao Tajiquistão, uma imensidão de montanhas, de horizontes infinitos e lagos de azuis profundos. Quis pintar os lugares dessa viagem, mas rapidamente o conceito se alargou e, embora, os lugares estejam lá, eu comecei a explorar o conceito de mudança centrando-me nas transformações da terra. É aí que de alguma forma já está a ideia de devir e de transição que eu exploro na exposição mais recente que esteve no Centro de Artes de Sines, os “Elementos de Transição”. Esta exposição deu continuidade à exploração da ideia de que nada permanece intacto, tudo muda, tudo se transforma e renova. No entanto, enquanto a TERRAmorfose se centrou nas transformações da terra, este trabalho aprofunda a relação entre a necessidade de ordem e sentido impostos pelo homem e o fluxo natural dos elementos e da vida. É neste fluxo que surge a questão do sentido. Não é por acaso que numa tela há um homem sozinho na imensidão de uma parede de betão em que o tempo já deixou as suas marcas. Ele está ali meio perdido e questiona-se. Também ele está em transição, também ele é corroído pelo tempo e o grande desafio existencial é encontrar-se ou perder-se. Ele tem vontade de pôr as coisas no sítio, de encontrar uma linha, um sentido perante a inevitabilidade da mudança. Toda a exposição se organiza em torno das ideias de devir e de permanência, de caos e de ordem, do tempo que corrói, que molda, que transforma ou renova, que nos faz começar de novo quando o fim é também inevitável. Como lidar com isto, a que se agarrar?

L – Que análise faz deste seu novo percurso?

F.A.- Não estando previsto, este percurso tem sido uma descoberta e, apesar das dificuldades e da dureza do processo, tem sido uma coisa boa que eu resolvi agarrar. Não sei onde é que ele vai dar porque há uma série de coisas de que eu necessito para continuar, nomeadamente de um espaço para atelier, mas sei que fez parte dos meus planos tentar fazê-lo crescer.