Escolas de surf queixam-se de impactos das obras do Porto de Sines e pedem compensações

Helga Nobre

As escolas de surf que operam na praia de São Torpes, em Sines, atribuem às obras de expansão do Porto de Sines alterações na ondulação e na morfologia da praia, que dizem ter provocado uma forte quebra da atividade, e reclamam compensações.

As preocupações foram transmitidas durante a iniciativa “Ouvir.Agir”, dedicada ao mar, promovida pela Câmara Municipal de Sines, em junho, numa visita às escolas de surf instaladas em São Torpes.

Em declarações ao Jornal O Leme, Flávio Jorge, responsável pela Escola de Surf Litoral Alentejano (ESLA), defendeu que a Administração dos Portos de Sines e do Algarve (APS) deve assumir responsabilidades pelos alegados impactos das obras do Terminal XXI.

Segundo o responsável da ESLA, as obras alteraram a dinâmica da praia, com consequências na acumulação de areia e na forma como as ondas rebentam.

“Há uns cinco anos, depois de o terminal estar concluído, houve uma grande alteração na praia. A praia de São Torpes ficou sem areia a sul e a areia veio depositar-se toda aqui ao pé dos molhes da antiga EDP”, afirmou.

Esta situação, acrescentou, tem “influência na praia, no Parque Natural, nos surfistas, na atividade do ensino do surf, que é aquela que me diz muito respeito”.

Por isso, no entender de Flávio Jorge, “a APS tem de assumir essa responsabilidade e tem de compensar a Comunidade”.

De acordo com o responsável da ESLA, a perda de condições para o ensino do surf é mais evidente durante o verão, obrigando à deslocação das aulas para praias situadas mais a sul, como a Vieirinha.

“No ano passado, num verão normal, daria 150 aulas em São Torpes. Dei cinco aulas. Só tivemos cinco dias em que houve condições mínimas para o ensino” do surf, revelou.

Também Kalu Oliveira, responsável pela Kalux Surf School, relatou dificuldades semelhantes: “Antes conseguíamos ficar aqui com os miúdos o verão inteiro, sem ter que nos deslocar mais a sul”, referiu.

Kalu Oliveira defendeu que a redução das condições para a prática e ensino do surf “prejudica o negócio e o desenvolvimento desta atividade nesta zona”.

As escolas defendem que as compensações podem incluir apoios financeiros pelas perdas sofridas, melhorias das condições noutras praias e investimentos no desenvolvimento da modalidade, nomeadamente em campeonatos, infraestruturas, no Sines Surf Clube e em iniciativas ligadas à história do surf na Região.

As duas escolas manifestaram ainda preocupação com o eventual avanço do Terminal Vasco da Gama, receando novos impactos na praia de São Torpes e na prática do surf.

O Presidente da Câmara Municipal de Sines reconheceu a importância do crescimento do Porto de Sines para a economia local, mas admitiu que esse desenvolvimento tem consequências para outras atividades.

“Não há dúvidas que o crescimento do Porto de Sines é importantíssimo para a economia local, tendo em conta que é o maior porto nacional. Obviamente que isto tem tido consequências numa atividade ou outra, que são as escolas de surf”, afirmou.

Para o Autarca é “justo que a Comunidade local, que está a perder, beneficie dessa mais-valia que o Porto de Sines vai ter seguramente com o seu crescimento”.

Contactada pelo “O Leme”, a Administração dos Portos de Sines e do Algarve reconheceu que os estudos realizados evidenciam que “ocorreram alterações na dinâmica costeira e na morfologia da praia de São Torpes”.

Segundo a APS, a evolução observada, nomeadamente “a rotação da configuração da praia, a estabilidade do setor norte e o recuo do setor sul, estará muito provavelmente relacionada com a alteração do regime de propagação da ondulação induzida pela ampliação do molhe Leste, sem excluir a influência de fatores naturais na dinâmica costeira”.

Relativamente à prática do surf, a Administração portuária referiu que os estudos de modelação e monitorização identificaram “alterações localizadas na propagação da ondulação e uma redução da sua altura significativa em determinados setores”.

A APS sustentou, contudo, que não foi identificada “uma degradação significativa da aptidão da Praia de São Torpes para a prática da modalidade”.

A evolução da praia está a ser acompanhada através de um programa multidisciplinar que envolve o Instituto Hidrográfico e a Hidromod e inclui campanhas de monitorização oceanográfica, levantamentos morfológicos e sedimentológicos, modelação hidrodinâmica e avaliação das condições para a prática do surf.

A Administração portuária adiantou que encomendou “um estudo de monitorização independente, de base científica, para avaliar objetivamente o impacte do prolongamento do molhe Leste na prática de surf em São Torpes”.

A primeira fase já foi concluída, mas o acompanhamento prossegue durante um período mais alargado, não estando excluídas novas fases de monitorização.

Sobre as reivindicações das escolas, a APS afirmou estar atenta às preocupações manifestadas e reconheceu “a importância do surf como atividade desportiva e turística”, acrescentando que tem realizado reuniões com os operadores para ouvir os impactos que dizem sentir.

A Administração portuária não exclui a criação de apoios, mas esclareceu que “qualquer mecanismo de apoio ou compensação a operadores ou à Comunidade terá de ser equacionado” no quadro dos processos de Avaliação de Impacte Ambiental e em articulação com Entidades como a Agência Portuguesa do Ambiente e a Câmara de Sines.

A APS acrescentou que “não exclui a criação de um mecanismo de apoio, embora uma eventual decisão dependa dos resultados do estudo de monitorização em curso”.

Relativamente ao eventual avanço do Terminal Vasco da Gama, a Administração portuária garantiu que os impactos sobre o território envolvente, incluindo São Torpes, foram considerados no processo de Avaliação de Impacte Ambiental.

Segundo a APS, a respetiva declaração determina a adoção de “medidas de minimização que assegurem a manutenção e compatibilidade das atividades existentes na proximidade, ligadas ao surf e à utilização da praia de São Torpes”, ou a sua reconversão para atividades económicas com o mesmo objetivo turístico e de aproveitamento dos recursos naturais.

Está ainda previsto, em articulação com o Município de Sines e outras Entidades, um levantamento das iniciativas ligadas ao mar existentes e projetadas para a zona.

A informação será integrada em estudos sobre o aproveitamento da bacia de São Torpes para fins turísticos e para a prática de desportos náuticos, incluindo a possível instalação de novos equipamentos.