O ressentimento português contra o Dubai

Por João Mendonça

Há poucas coisas que unam tanto os portugueses como a sensação de injustiça. Durante anos, essa injustiça tinha alvos clássicos: políticos, bancos, “os de Bruxelas”.

Agora, numa curiosa actualização da lista, surgiram os portugueses que vivem nos Emirados Árabes Unidos. De repente, o “português no Dubai” tornou-se personagem colectiva – e vilão útil – de um país cansado de trabalhar muito, ganhar pouco e pagar muito ao Estado.

Não é preciso grande investigação empírica. Basta abrir as redes sociais sempre que há uma notícia sobre ataques no Médio Oriente, aeroportos fechados ou pedidos de apoio consular. A caixa de comentários enche-se de variações da mesma frase: “Fugiram aos impostos para o Dubai, agora querem vir num Uber do Estado.” O sarcasmo é barato, mas revela uma ferida cara: a percepção de que há quem tenha conseguido escapar à asfixia fiscal e salarial de Portugal.

O ressentimento começa no bolso, mas não acaba aí. Ao longo dos últimos anos, consolidou-se uma narrativa simples até à caricatura: os que partem para o Golfo trocam o dever de contribuir por salários livres de IRS e um paraíso de consumo, para depois regressarem a Portugal nas horas de aperto, de preferência com a República a pagar a factura. Nesta história, o contribuinte que ficou é o otário; o expat no arranha-céu é o chico-esperto globalizado. E ninguém gosta de se ver no papel de otário.

A isto soma-se um juízo moral e político. Os Emirados não são uma democracia liberal, as liberdades civis são condicionadas, os direitos laborais são desiguais. Há quem olhe para quem lá trabalha – sobretudo quando exibe luxos e lifestyle de “influencer” – como alguém disposto a fechar os olhos a tudo isso em troca de um salário gordo, uma penthouse com vista para o Burj Khalifa e um SUV reluzente. A crítica, nestes casos, vem embrulhada numa acusação de cumplicidade: quem aceita aquele sistema compra, com o seu silêncio, um lugar num modelo que rejeitaríamos para Portugal.

Mas isto não é só uma disputa sobre impostos nem sobre direitos humanos. É também uma guerra de símbolos em plena era das redes. O português anónimo que está em Abu Dhabi a fazer turnos de 12 horas, a enviar dinheiro para a família, quase não existe no imaginário colectivo. O que vemos no ecrã são sobretudo dois tipos: o “influencer” que se filma a dizer que “em Portugal é só burros a pagar impostos” enquanto entra num carro de alta gama; e o turista apanhado numa crise a exigir do Estado português protecção imediata. São estas figuras extremas que alimentam “likes”, “shares” e indignação.

O resultado é que passamos a falar de “portugueses no Dubai” como se fossem um bloco homogéneo de privilegiados sem escrúpulos, da mesma forma simplista com que, noutras épocas, se falava dos “emigrantes na França” ou dos “retornados”. A diferença é que agora o julgamento é instantâneo, público e performativo: julgar tornou-se uma forma de entretenimento, e a moralidade, um desporto de bancada.

Convém, porém, olhar para o espelho. O ódio virtual aos expats no Golfo diz tanto sobre os Emirados como sobre nós próprios. Num país onde a classe média se sente espremida entre rendas absurdas, IRS asfixiante e serviços públicos em erosão lenta, é tentador apontar o dedo a quem, aparentemente, escapou à armadilha. Criticar o “português no Dubai” é mais fácil do que discutir seriamente por que é que tanta gente sente que só consegue ter uma vida digna se sair de Portugal – seja para Londres, para o Luxemburgo ou para o Golfo.

 

Há também uma certa hipocrisia de parte a parte. Quem constrói uma “persona” pública assente em “não devo nada a Portugal” não pode, de um dia para o outro, exigir um escudo protector incondicional do Estado que passou meses a ridicularizar. Mas quem, de cá, celebra cada crise no Médio Oriente como se fosse merecido castigo divino para quem emigrou também está a mostrar pouco mais do que inveja mal disfarçada.

Talvez o ponto de partida mais honesto seja admitir que as escolhas individuais nestas geografias cinzentas raramente são puras. Há quem vá para os Emirados por pura ambição fiscal, há quem vá porque em Portugal não consegue sair do salário mínimo, há quem vá por acaso profissional, há quem vá por aventura. Há contradições éticas óbvias, mas também há necessidades materiais reais. Reduzir tudo isto a uma guerra santa entre “pagadores de impostos” e “fugidos” é intelectualmente pobre e politicamente conveniente para quem prefere não discutir a fundo o país que temos.

No fim, o ressentimento contra os portugueses no Dubai é um sintoma, não uma causa. Sintoma de um espaço público saturado de frustração, de uma economia que não convence e de um debate político que prefere vilões fáceis a diagnósticos difíceis. Enquanto continuarmos a discutir o IRS de quem vai, em vez de discutir a qualidade de vida de quem fica, vamos continuar a olhar para o arranha-céu errado.

Talvez valha a pena trocar a pergunta “porque é que eles foram?” por outra mais incómoda: “o que é que nos obriga, a tantos, a pensar em ir?”

O autor não adere ao novo acordo ortográfico.