Por: Domingos Dituca de Oliveira, Comunicólogo | Actor | Poeta
Falo hoje como africano, como angolano, como um emigrante mas também como alguém que aprendeu a amar esta terra que me acolheu — Vila Nova de Santo André.
Venho de Angola, uma nação rica em cultura, tradição e memória. Um povo que sofreu, lutou, resistiu e que sabe o valor da história. Talvez por isso, ao chegar a Portugal, reconheci algo familiar: o peso das raízes, a importância da identidade e o orgulho naquilo que se construiu ao longo das gerações.
Preservar o património não é apenas conservar paredes antigas, edifícios históricos ou documentos esquecidos. Preservar o património é proteger a alma de uma cidade. É garantir que os nossos filhos e netos saibam quem somos, de onde viemos e quais foram os caminhos que nos trouxeram até aqui.
Vila Nova de Santo André não é apenas um conjunto de ruas e prédios modernos. É uma cidade que nasceu do esforço, do trabalho e da visão. É fruto do desenvolvimento da região de Sines e do crescimento industrial que transformou o litoral alentejano. Aqui cruzam-se histórias de trabalhadores, de famílias que vieram de várias partes do país — e também de outros países, como eu.
O património não é apenas o passado distante. É também a memória viva das comunidades que aqui se estabeleceram. É o sotaque diverso que se ouve nas ruas, é a mistura de culturas, é a convivência pacífica entre diferentes origens.
Como angolano, sei o que significa perder património. Sei o que é ver marcas da história desaparecerem por falta de cuidado, por falta de consciência ou por falta de união. Por isso, sinto a responsabilidade de dizer: preservar é um dever coletivo.
Devemos proteger os espaços públicos, valorizar as tradições locais, incentivar as escolas a ensinar a história da cidade, apoiar iniciativas culturais, cuidar dos monumentos e das memórias orais dos mais velhos. Porque uma cidade sem memória é uma cidade sem identidade.
Preservar o património também é um ato de respeito respeito por quem construiu antes de nós e responsabilidade perante quem virá depois.
Que Vila Nova de Santo André continue a crescer, mas que cresça com consciência. Que o desenvolvimento não apague as raízes. Que a modernidade caminhe de mãos dadas com a história.
Eu, como filho de África e cidadão integrado nesta comunidade, afirmo: a história desta cidade também passa por nós que aqui vivemos, trabalhamos e contribuímos. Preservar o património é também reconhecer que a identidade de hoje é feita da diversidade.
Que sejamos guardiões da memória.
Que sejamos construtores do futuro.
E que nunca esqueçamos que uma cidade forte é aquela que conhece e honra a sua história.
Comunicólogo | Ator | Poeta


