Dia Mundial dos Pobres – Uma chamada à Solidariedade

O Dia Mundial dos Pobres, celebrado a 16 de novembro, é uma iniciativa da Igreja Católica, instituída pelo Papa Francisco em 2017. Este dia convida-nos a refletir sobre a realidade da pobreza, a promover gestos concretos de solidariedade e a escutar com atenção aqueles que vivem em situação de vulnerabilidade.

Em Vila Nova de Santo André, Santiago do Cacém, Sines e Grândola (Melides), muitas famílias enfrentam diariamente dificuldades económicas e sociais. Dependem de doações de alimentos, vestuário e outros bens essenciais para sobreviver com dignidade. Felizmente, várias Instituições locais têm assumido um papel ativo no apoio a quem mais precisa.

Instituições que fazem a diferença

Entre as Entidades que prestam apoio solidário destacam-se: A Cáritas Paroquial de Santo André (CPSA), cuja missão é oferecer conforto nos momentos de maior desespero, acolhendo pessoas em busca não só de alimentos, mas também de apoio emocional, social e espiritual. A Cáritas Paroquial da Igreja de São Pedro de Melides (CPIM), que promove a dignidade humana e a solidariedade junto das famílias vulneráveis. A Cáritas Paroquial de Sines (CPS), sendo a sua principal a atividade do Infantário “O Pintainho”, alia o compromisso com o bem comum à missão da Igreja, promovendo a inclusão social, cujas instalações (totalmente separadas) também acolhem a distribuição de géneros alimentares. A Conferência Vicentina de São Tiago e São João de Deus, em Santiago do Cacém, que desempenha um papel fundamental no apoio a pessoas com dificuldades financeiras e sociais.

Para além destas Instituições acima referidas, também a Santa Casa da Misericórdia de Santiago do Cacém (SCMSC) desenvolve vários programas de apoio, como a Cantina Social, o Programa PESSOAS e o Cartão ABEM, que garantem alimentação e acesso à saúde para famílias carenciadas. Já a Santa Casa da Misericórdia de Sines (SCMS) também contribui com a Cantina Social, ajudando quem mais precisa.

As Câmaras Municipais de Santiago do Cacém (CMSC) e de Sines (CMS) reforçam esta rede de apoio com projetos como o Radar Social e o SAAS (Serviço de Atendimento e Acompanhamento Social), que prestam assistência direta e personalizada às pessoas em situação de fragilidade.

Centenas de pessoas apoiadas

Todos os dias, dezenas de voluntários unem esforços para apoiar centenas de pessoas em situação de vulnerabilidade social na Região. Na Cáritas de Sines, atualmente, são apoiadas 94 famílias, num total de 377 pessoas, das quais 135 são crianças entre os 0 e os 18 anos. “Este apoio é assegurado por uma equipa dedicada de 13 voluntários, que prestam um acompanhamento próximo e personalizado”, partilha Conceição Martins, Presidente da Instituição.

Em Santo André, Manuela Eloi, Presidente da Cáritas refere que “cerca de 300 pessoas recebem apoio alimentar, graças ao trabalho incansável de mais de uma dezena de voluntários”.

A Conferência Vicentina de São Tiago e São João de Deus, em Santiago do Cacém apoia mais de 150 pessoas, distribuídas por 50 agregados familiares, com a ajuda de voluntários que asseguram a logística e entrega dos bens, diz a Presidente, Luisa Nascimento.

A Cáritas de Melides, presta apoio mensal a cerca de 80 pessoas, incluindo idosos, famílias carenciadas e pessoas em situação de sem-abrigo, com alimentos, roupa, produtos de higiene e mobiliário, com a ajuda de voluntários, refere Luisa Romão, Presidente da Instituição.

Programas de Apoio Alimentar

Para além destas Instituições acima referidas, a Santa Casa da Misericórdia de Santiago do Cacém-(SCMSC), através do Programa de Emergência Alimentar (PEA), financiado pela Segurança Social, “fornece 9 refeições diárias (almoço e jantar), preparadas na Cozinha Conde do Bracial e entregues a pessoas com comprovada carência económica, referenciadas pelo Serviço de Ação Social do Município”, informa Lilia Mendes, Diretora da Ação Social da Santa Casa.

Em Sines, a Santa Casa da Misericórdia (SCMS) “apoia 20 utentes com refeições gratuitas ou a um valor simbólico (até 1€), entregues para consumo no domicílio. Este apoio destina-se a idosos com baixos rendimentos, famílias com filhos a cargo, desempregados e pessoas com deficiência” diz Rita Cruz, da Santa Casa.

Segundo a Santa Casa de Santiago, o Programa PESSOAS 2030, um reforço essencial que a SCSC coordena, desde março de 2025, nos Concelhos de Santiago do Cacém e Sines, abrange 528 beneficiários. O programa tem duas modalidades:  Distribuição Direta: entrega de cabazes alimentares e bens de primeira necessidade e Distribuição Indireta: cartões eletrónicos carregados mensalmente pela Segurança Social, que permitem a compra de alimentos em estabelecimentos aderentes. As Entidades mediadoras deste Programa incluem: Cáritas Paroquial de Sines; Fábrica da Igreja Paroquial de Santa Maria; Santa Casa da Misericórdia de Santiago do Cacém; Casas do Povo de Cercal, de S. Domingos e Alvalade e Associação de Apoio e Desenvolvimento Integrado de Ermidas-Sado.

A Cáritas de Sines atua como entidade mediadora do POAPMC, apoiando 23 famílias com cartões eletrónicos. Os alimentos do Banco Alimentar são distribuídos quinzenalmente, enquanto os do POAPMC são entregues mensalmente. A instituição conta ainda com parcerias com o Recheio, Pingo Doce, que fornecem produtos e a GALP e o Banco Alimentar que ajudam com botijas de gás para quem mais precisa.

A Cáritas de Santo André, tem o apoio do Banco Alimentar e do POAPMC e trabalha em articulação com a Câmara Municipal de Santiago, a Junta de Freguesia de S. André em momentos pontuais.

A Cáritas de Melides conta com a ajuda do Banco Alimentar, da Inter Ajuda, Programa Phenix, supermercados de Melides, peixarias em Grândola, particulares, Costa Terra.

Na Conferência Vicentina, a ajuda chega do Banco Alimentar de Setúbal (Núcleo de Santo André) e de doações pontuais. A Junta de Freguesia de Santiago também contribui com um apoio anual para a aquisição de alimentos. No entanto, a Presidente da Conferência, diz “agradecemos toda a ajuda, mas lamentamos que parte da fruta recebida do Banco Alimentar chegue deteriorada pelo gelo, não a podemos dar, devido ao estado deteriorado da mesma”, sugerindo que seja encaminhada para Associações que cozinham refeições, podendo ser transformada em compotas ou fruta cozida para consumo diário. Infelizmente, a Conferência não pode concorrer a certos Programas de Apoio Alimentar por falta de condições logísticas, como equipamentos de frio e armazenamento, o que limita o acesso a recursos que poderiam reforçar significativamente a ajuda prestada. “Precisamos imenso do apoio da Comunidade”, apela Conceição Nascimento.

A Diversidade dos utentes

Segundo Manuela Eloi, da Cáritas de Santo André, a maioria dos atendidos são famílias portuguesas e emigrantes, muitas vezes jovens e em processo de legalização. “A Cáritas tem sido um porto seguro para centenas de pessoas”, afirma. Já Conceição Martins, da Cáritas de Sines, destaca que muitos  dos beneficiários vêm de Países como Moçambique, Angola, Brasil, Senegal, Colômbia, Moldávia, Cabo Verde, Panamá e Portugal. Em Melides,  para além das famílias, “apoiamos também um número significativo de idosos e pessoas em situação de sem-abrigo”, diz Luisa Romão. Jovens sem emprego e idosos com reformas muito baixas, são estes os utentes que procuram ajuda das Vicentinas, em Santiago do Cacém.

O apoio prestado aos mais necessitados pelas Instituições Sociais da Região baseia-se em critérios definidos pela Segurança Social, pelo Banco Alimentar e pelo SAAS (Serviço de Atendimento e Acompanhamento Social), tendo sempre em conta a documentação e os rendimentos de cada agregado familiar. No entanto, quando surge uma situação urgente ou uma necessidade identificada diretamente no terreno, as Instituições não hesitam em agir de imediato, prestando o apoio necessário e informando posteriormente as Entidades competentes.

Principais necessidades

As maiores urgências entre os pedidos mais frequentes estão os alimentos e o apoio à habitação, com rendas cada vez mais difíceis de suportar. Só depois surgem outras necessidades, como vestuário e mobiliário.

Manuela Elói, da Cáritas de Santo André, sublinha: “As necessidades mais urgentes dos utentes passam pela habitação, alimentação, eletricidade e outros bens essenciais. A Cáritas apoia com alimentos, roupa e ajuda nas despesas básicas, especialmente quando há crianças envolvidas.”

Em Sines, a Cáritas foca-se sobretudo na distribuição de alimentos, mas também presta apoios pontuais noutras áreas, sempre em articulação com os serviços sociais competentes.

Luisa Nascimento, da Conferência Vicentina, recorda que “antigamente, os utentes pediam ajuda para medicamentos, que comprávamos na farmácia e pagávamos com a receita da venda de Natal. Hoje, já não pedem tanto, talvez o Centro de Saúde esteja a ajudar”.

Luísa Romão, da Cáritas de Melides, reforça: “a alimentação continua a ser a maior necessidade. Mas procuramos dar uma resposta mais completa, com roupa, produtos de higiene, mobiliário e encaminhamento para outros serviços especializados.”

Falta de voluntários e apelo à Comunidade

Apesar do esforço incansável, a falta de voluntários é um dos maiores desafios para estas Instituições. “O número de pedidos não para de crescer, mas temos poucos voluntários disponíveis. A maioria já tem uma idade avançada. Precisamos de sangue novo”, apela Luisa Romão, da Cáritas de Melides. As Vicentinas de Santiago partilham da mesma preocupação, “os voluntários já têm alguma idade. É preciso mais jovens a ajudar.” A Presidente da Cáritas de Santo André, deixa um apelo com esperança, “sabemos que os jovens têm os seus empregos e famílias, mas sempre que precisamos, há quem apareça e ajude. O povo é solidário.”

Há muitas formas de contribuir, como ajudar na distribuição de alimentos, organizar e separar roupa para doações, participar em eventos de angariação de bens, oferecer tempo e presença como voluntário, cada gesto conta, cada hora doada faz a diferença na vida de quem mais precisa.

“Se quiser ajudar, é só aparecer quando há atividades, como a última noite de fados organizada pela Cáritas de Santo André, que foi um sucesso. Toda a ajuda é bem-vinda”, convidam as Presidentes das Instituições.

Neste Dia Mundial dos Pobres, somos convidados a olhar com mais atenção para quem vive à margem, a reconhecer o valor da solidariedade e a agir com compaixão e responsabilidade. Porque cada gesto conta — e cada vida merece ser cuidada.

Testemunhos: Vozes da Resiliência

Na nossa Região, muitas pessoas enfrentam desafios profundos relacionados com alimentação, habitação, saúde e isolamento. Neste espaço, partilhamos alguns testemunhos de quem vive essa realidade de perto. Os nomes foram alterados para preservar a identidade dos entrevistados, mas as suas palavras refletem a força, a dignidade e a humanidade de quem, mesmo com pouco, continua a fazer muito.

“Temos que nos desenrascar. Com pouco, fazemos muito.”

Aos 66 anos, Luísa Alberta é mãe de sete filhos e avó de onze netos. Ainda não está reformada — faltam-lhe dois anos para completar os descontos necessários — e enfrenta diariamente os desafios da vida com coragem e dignidade. Diabética, vive com o marido, 76 anos, que recebe uma reforma de 450€, e apesar de também estar doente, ainda faz alguns biscates quando a saúde o deixa, para ajudar nas despesas da casa. Já tentou aceder ao Rendimento Social de Inserção, mas foi recusado devido ao rendimento do marido. Luísa cuida dos netos e recorre à Cáritas de Vila Nova de Santo André para apoio com alimentos e roupa, onde diz ser sempre muito bem recebida. Os medicamentos não pesam muito no orçamento, e com espírito poupado, faz o que recebe chegar até ao fim do mês. “Temos que nos desenrascar. Com pouco, fazemos muito.”

Uma vida de luta, amor e generosidade

Aos 62 anos, Mariana de Jesus carrega uma longa história de trabalho e superação. Reformada por invalidez devido a problemas de saúde, vive com uma pensão muito reduzida. Apesar das dificuldades, continua a ajudar um dos filhos, que enfrenta uma depressão, e ainda apoia o pai dos seus filhos, de quem está separada há anos, que es. Com dois filhos emigrados e a dor ainda viva da perda do pai, Mariana enfrenta dias difíceis. Recorre à Cáritas para receber alimentos, ajuda pela qual é profundamente grata. Mesmo assim, “não hesito em partilhar o pouco que tenho” com quem precisa. Hoje, mais do que nunca, precisa de apoio psicológico — mas continua a ser um exemplo de força, solidariedade e amor incondicional.

Entre a solidão e a esperança

Ana Cristina, reformada e com uma vida marcada por dificuldades, Ana vive sozinha nos arredores de Santo André, numa casa velha e degradada, propriedade do Estado, que está a cair aos pedaços. Com menos de 400€ por mês, o complemento de idosos e a ajuda da Cáritas são essenciais para viver. Sem gás, cozinha num fogão elétrico e passa grande parte do tempo em casa, sem vontade para nada, devido ao estado em que se encontra a casa. Tem um filho emigrado e duas netas que já não vê há anos, mas consola-se com fotos e chamadas telefónicas. Gosta de dançar, cuida de gatos abandonados. O seu maior sonho é “ter uma casinha pequenina e simples, mas segura, onde possa viver com dignidade e tranquilidade.

Solidariedade no acesso aos Medicamentos

A Santa Casa da Misericórdia de Santiago do Cacém é parceira no programa ABEM – Rede Solidária do Medicamento, uma iniciativa conjunta com a Associação Dignitude e a Fundação Caixa Agrícola Costa Azul. O objetivo é garantir que cidadãos em situação de carência económica tenham acesso gratuito a medicamentos comparticipados prescritos por receita médica. A Dignitude gere o programa e financia 50% do valor das receitas. A Fundação Caixa Agrícola Costa Azul cobre os restantes 50%. A Santa Casa presta apoio técnico na identificação e referenciação dos beneficiários.

Para obter o Cartão ABEM, o cidadão deve apresentar documentação comprovativa da sua situação económica à Santa Casa ou à Fundação. Após validação, recebe o cartão e pode levantar os medicamentos gratuitamente em farmácias aderentes.

Visitas e acompanhamento a doentes

A Cáritas de Sines dinamiza uma Equipa de Visitadores composta por oito voluntários, que semanalmente visitam pessoas isoladas, idosas, doentes ou sós. Estas visitas têm como objetivo criar laços afetivos e oferecer atenção, carinho e presença humana. Atualmente, são acompanhadas dez pessoas em diferentes zonas de Sines, desde a ZIL II ao Bairro Marítimo, incluindo áreas rurais. Este trabalho é realizado em parceria com o Centro de Saúde de Sines, através da enfermeira da Comunidade, que identifica os casos que necessitam ou desejam acompanhamento.

Radar Social e SAAS combatem pobreza e exclusão social

O Município de Santiago do Cacém está a implementar o projeto-piloto Radar Social, financiado pela União Europeia através do PRR, no valor Global de 243.511,68€, com o objetivo de identificar e apoiar pessoas em situação de vulnerabilidade social. Desde abril, já foram sinalizadas 111 pessoas ou famílias, sobretudo por isolamento, carência económica e falta de condições habitacionais.

O projeto funciona em articulação com entidades locais como Segurança Social, Saúde, Educação, IPSS, GNR entre outros, permitindo encaminhamentos rápidos e eficazes. A sinalização pode ser feita por técnicos, vizinhos ou familiares, e os dados recolhidos ajudam a orientar políticas públicas e investimentos sociais.

Os principais grupos afetados incluem idosos isolados, famílias monoparentais e residentes em zonas rurais ou periféricas. Já se observam melhorais habitacionais e maior coordenação entre Entidades.

O Radar Social avalia sinais de risco com base nas condições de vida: sem-abrigo, carência económica, falta de rendimentos, habitação precária ou sobrelotada, despejo/desalojamento. Saúde e autonomia: dependência física ou mental, acamamento, necessidade de cuidados de saúde, perda de autonomia, dificuldades motoras ou cognitivas. Segurança e proteção: abandono, maus-tratos, negligência, violência doméstica, tráfico de seres humanos, discriminação. Situação familiar: ausência de cuidadores para dependentes, crianças/jovens em risco. Comportamentos e sinais pessoais: isolamento, solidão, desorientação, comportamentos aditivos (álcool, drogas), mendicidade, risco de vida. Necessidades básicas: carência alimentar, dificuldade nas tarefas diárias.

Complementarmente, o Serviço de Atendimento e Acompanhamento Social (SAAS), também promovido pela Autarquia, realizou 1.906 diligências no último ano, com destaque para os apoios em habitação, alimentação e dificuldades económicas. Em 2024, Santo André e Santiago do Cacém lideram em novos processos.

Entre os desafios enfrentados pelos técnicos estão a especulação imobiliária, falta de vagas em lares e respostas insuficientes na saúde mental. Apesar disso, há histórias de sucesso, como a recuperação de habitações degradadas, que demonstram o impacto positivo destas iniciativas na Comunidade.

Fonte: Serviço de Intervenção Social da CMSC-Filomena Marquês