CRÓNICA DA QUOTIDIANA VIVÊNCIA – José Manuel Claro
1 – Contaram-se os últimos votos e oficialmente poder-se-á considerar encerrado o processo eleitoral que nos conduziu a esta nova Legislatura.
Com uma desfaçatez digna de registo, os vencedores do plesbicito jogam para o tabuleiro uns dados com novas faces, propondo à sociedade novos objetivos nunca dantes abordados em concreto ao longo da campanha eleitoral desenvolvida, mais precisamente, uma Revisão Constitucional.
No tacitismo do jogo político, algo definido pelos dicionários como «uma forma de comportamento ou expressão em que algo é subentendido ou não é dito explicitamente, mas é percebido pelas entrelinhas ou pela situação», temos para nós que o proposto não visará propriamente uma revisão, mas antes o criar um cenário ou uma moeda de troca, para que o Governo saído deste plesbicito, insira no sua programação um conjunto de medidas em que se reflitam os programas apresentados pelos partidos, aqueles que os apresentaram.
Dir-se-á que a política será mesmo isto, mas vendo bem a situação, estas últimas eleições para a Assembleia da República tiveram algumas particularidades que conduziram a algumas situações em que os eleitores votassem num partido sem conhecerem os seus candidatos a Deputados.
2 – A campanha de correu de uma forma ‘déja vu’, com agressões mais ou menos teatralizadas a candidatos, à agressão mútua entre líderes políticos e minorias étnicas, obrigando a uma apertada segurança policial, utilizada igualmente para manter afastados os jornalistas de alguns candidatos que tiveram medo das possíveis perguntas que esses tais profissionais da informação lhes pudessem fazer, e, já para o final, aquela rábula do ‘coitadinho está doente’ que, salvo melhores interpretações, certamente não será considerada para atribuição de um qualquer óscar da academia.
A bem ver, o circo saiu à rua, mas vendo as imagens dos repórteres que acompanharam as caravanas, e o uso recorrente a planos muito fechados que não permitiam ver a participação popular angariada por essas mesmas arruadas, técnica muito utilizada quando se quer omitir a verdadeira magnitude popular do ato. Esta terá sido uma campanha morna, aqui e ali salpicada por um ou outro incidente que não chegou para lhe dar cor ou o epíteto de uma campanha viva e esclarecedora.
3 – Com os resultados obtidos e publicitados, termos a AD como grande vencedora, o CHEGA, como segunda força política e o PS na terceira posição, isto se considerarmos de uma forma global, quais a forças políticas mais apetrechadas a intervirem na próxima governação ou a nela terem participação mais ativa. O cenário, à partida suscitará um grande esforço negocial por parte do governo que vier a ser empossado pelo Presidente da República, como forma de se tentar garantir uma legislatura integralmente cumprida e sem grandes ressaltos sociais.
O País necessita de estabilidade que, uma vez conseguida, nos abra horizontes internamente pacificados e nos vá permitindo reposicionarmo-nos no cenário internacional de uma forma mais consistente e condizente com os nosso oitocentos e oitenta e três anos de história, ao longo dos quais demos novos mundos ao mundo e fomos como que uma inspiração social nos continentes de além-mar.
4 – O mundo à nossa volta, está cada vez mais conturbado e à medida que esse mesmo mundo vai tomando consciência das verdadeiras intenções patenteadas pelos representantes dos Estados Unidos da América, a começar pelo seu atual Presidente, o cenário em vez de melhorar piora de dia para dia, e particularmente a Europa, enquanto comunidade, não poderá continuar indiferente ao enorme drama que se passa na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, que está a exceder em muito os horrores cometidos pelos nazis durante a II Guerra Mundial.
Talvez uma consulta à história e aos tratados saídos desse conflito bélico e nunca cumpridos pelos israelitas, nos permitam ver com clareza o quem é quem, na responsabilidade do crescimento do sentimento antissemita que hoje se vai respirando por este mundo fora.
A Europa em geral e Portugal em particular, deveriam adotar uma posição comum e sem ambiguidades, quanto a este conflito no Médio Oriente que, em vez de se solucionar de uma vez por todas, vai-se agravando e cuja solução estará num ocultar ao olhar internacional da situação, por um mero artifício político, que a breve trecho se traduzirá num ataque de Israel ao Irão.
A verificar-se esta situação, Portugal não sairá incólume deste conflito de interesses.
JOSÉ MANUEL CLARO


