«FORA DE CENA QUEM NÃO É DE CENA»

CRÓNICA DA QUOTIDIANA VIVÊNCIA – José Manuel Claro

1 – Soa nos bastidores de uma qualquer peça de teatro, a voz do contrarregra, anunciando aos circunstantes a necessidade de abandonarem o palco, dada a proximidade do correr do pano da boca de cena.

Em palco ficarão os atores que iniciam a representação e mais uma ou outra ajuda de última hora. Era assim nos meus tempos de juventude, em que nutria um quase pavor pelos palcos, mas que lá pelo Salão Paroquial, assistia religiosamente aos ensaios das peças que ciclicamente eram levadas à cena por todos aqueles e aquelas destemidas personagens que não sofriam dos mesmos pavores que eu. E ainda bem que os havia. Quem costuma ler as crónicas que por aqui vamos publicando há mais de sete anos, poderá aquilatar que a partir de determinada altura, abandonei o lirismo de uma existência pacífica naquilo a que chamo de paraíso, passando-me a focar na situação do mundo que, por uma razão ou por outra, tornou esse mesmo mundo num barco à deriva, num mar tempestuosos e com água no porão. Tenho tentado, através de uma análise fidedigna, estar atento aos balanços que este mundo tem dado na sua navegação, e partilhar convosco certos pontos de vista que precatem as nossas condições futuras de sobrevivência.

 

2 – Contudo, certas cenas da peça do teatro da vida a que estamos a assistir, talvez fugindo um pouco ao guião, tiveram o condão do quase impossível, a sobreposição noticiosa ás cenas de guerra e destruição que grassam diariamente por esse mundo fora. Referimo-nos à anunciada morte do Papa Francisco, que tirou em absoluto, o protagonismo informativo às atividades bélicas que, apesar de tudo, continuam a decorrer.

Não que o desenlace não fosse infelizmente esperado, dado o avolumar das debilidades físicas de Sua Santidade, mas se atentarmos nas reações internacionais, veremos que dificilmente, nestes últimos tempos, encontraremos um facto que una uma tão generalizada comunhão de reações ao sucedido.

Politicamente, é exaustiva a lista de presenças ao ofício fúnebre que já se fizeram anunciar, oriundas dos quatro cantos do mundo, independentemente dos matizes políticos que cada um professa. Aqui, só não diremos que ‘todo o mundo’ estará presente às cerimónias fúnebres, porque alguns dos líderes políticos atuais, têm pendentes mandatos de captura emitidos pelo Tribunal Internacional de Haia, pela prática de crimes contra a humanidade e, se viajassem até Roma, teriam de ser detidos pela polícia italiana.

 

3- Mas voltando às reações à morte do Papa Francisco, elas serão como que o espelho, o resultado político para nos exprimirmos mais a preceito, da conduta de um homem que nestes últimos doze anos esteve ao leme da nau da Igreja Apostólica Romana, navegando num mar tempestuoso da conduta internacional, em que o materialismo e a ganância se sobrepuseram à mais lídima lógica de governo da condição humana.

Nem tudo foram rosas durante o seu Pontificado, muitas das vezes o Papa Francisco teve de navegar na crista da onda, como soe dizer-se, porque igualmente teve de, internamente, reformar a Igreja, nos seus princípios de encarar o mundo, abrindo as portas a outros credos e géneros humanos, até aqui não reconhecidos eclesiasticamente.

Efetivamente, em relação às barreiras de género levantadas socialmente, Francisco travou internamente duras batalhas, defendendo a universalidade de género «porque todos somos humanos», proferiu vezes sem conta nas suas intervenções, como que apontando novos rumos à Igreja.

Para que todas estas novas filosofias de gestão humana, descolassem dos velhos pergaminhos que manietavam a Igreja, Francisco, procedeu à renovação de cerca de oitenta por cento do Colégio Cardinalício, dotando o Vaticano com instrumentos e capacidades mais realistas, de gestão deste mundo novo a que ele quis ligar, intimamente, o mundo Católico.

 

4 – Supomos que futuramente, iremos ser confrontados, sob múltiplos aspetos e formas, com uma frase que Sua Santidade gostava muito de usar, quando se referia à universalidade que deverá caracterizar a abrangência de comportamentos entre os homens: «todos, todos, todos». Que assim seja…     JOSÉ MANUEL CLARO