NÓS POR CÁ…

CRÓNICA DA QUOTIDIANA VIVÊNCIA – José Manuel Claro

 1 – Todos mal, e não haveria outra coisa a esperar.

Quando, aqui há uns dias, a imprensa propalou um encontro noturno de dois portugueses, num bar lisboeta para mordiscarem qualquer coisa e empurrarem essa mesma coisa, goelas abaixo, com uma bebida, a primeira coisa que ma saltou à memória, foi o livro escrito em 2016, pelo Ricardo Araújo Pereira, intitulado ‘A doença, o sofrimento e a morte entram num bar’, que religiosamente guardo nas prateleiras de um arremedo de biblioteca que tenho cá por casa.

O encontro, talvez tenha chamado a atenção por dois motivos, sendo que o primeiro foi o que deu mais nas vistas, o corpo de segurança, que de tão discreto, até chamou a atenção.

O segundo aspeto, foi o quem é quem, das duas personagens que de uma forma que não se pretendeu totalmente anónima, resolveram a coberto da noite, certamente como bons amigos, pelo menos conhecidos são, encontrarem-se para trocarem dois dedos ou dois palmos de conversa.

Curiosamente, a doença foi personificada pelo Almirante Gouveia e Melo, pelo mal que ameaça a classe política portuguesa de vir a perder uma parte do tacho onde se vai movimentando atualmente.

O sofrimento e a morte foi representada, pelo atual Ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, pertencente a um partido em agonia permanente e muito próximo da extinção, só mantido vivo por uma coligação em que a principal força, o PSD, teve receio de se submeter ao veredito popular de uma forma direta.

 

2 – Costuma dizer o povo, que não há almoços grátis, e aquilo que poderia ter sido um encontro de bons amigos, originou uma parafernália interpretativa que se prestaria a ser um guião de uma saga novelística se, e nestas coisas há sempre um se, o seu desenrolar não interviesse direta ou indiretamente com a vida de todos nós.

Desde uma simples auscultação daquilo que o Almirante pensa fazer do seu futuro, visando o posicionamento político das forças do espetro governativo, até ao extremo de, numa forma não oficial insinuar uma nomeação por parte do governo para um cargo de ‘Chefe do Estado Maior das Forças Armadas’, de tudo se ouviu nos dias imediatos a esse tristemente famigerado ‘encontro de amigos’.

 

3 – Como se tudo isto não bastasse, surgiu no passado dia 27, uma comunicação ao País, feita em horário nobre, pelo Primeiro Ministro Luís Montenegro, intervenção que mais se assemelhou a um passeio apressado de um elefante por uma loja de cristais, dado o desacerto evidenciado em relação a todos os aspetos abordados.

Pela data, pelo horário escolhido, pelo conteúdo da comunicação, veio-me à lembrança aquela rábula do Jô Soares, em que surgiu genufletido, vestido de rei e com uns sapatos colados nos joelhos, e que de uma forma arrogante perguntava: «O que é que eu sou? O que é que eu sou? O que é que eu sou?», ao que o povo respondia em uníssono: «Sois Rei! Sois Rei! Sois Rei!».

Pois, só que nesse dia, a essa hora, jogava o Benfica e o povaréu não pôde gritar fosse o que fosse porque não estava por perto e, ainda por cima, a essas horas, o glorioso estava a perder.

 

4 – Para além de tudo isto, estas manifestações de carácter político, levadas a cabo num enquadramento imprestável para o que quer que fosse, evidenciou, uma vez mais, a falta de sentido de estado patenteado pela classe política dominante, toda ela falha de perfil adequado para representar uma Nação e definir os rumos pelos quais a nossa sociedade deverá optar, numa evolução que se quer positiva para um futuro que está já ali ao virar da esquina.

Poder-se-ia interpretar, que a tal extemporânea comunicação, visava o calar de todos aqueles que nestes últimos tempos têm pedido quase diariamente a demissão das duas Ministras que acompanhavam o Primeiro Ministro na comunicação feita ao País, um País ausente dessas discursatas sem conteúdo palpável e de interesse social, anunciando uma compra de meios materiais para equipar as depauperadas forças policiais, aquisição essa que foi decidida pelo governo que antecedeu o atual mandato político.

Dirão os menos avisados, depois de ouvido todo aquele batalhão de comentadores televisivos que horas e horas a fio vão inundando os horários nobres das janelas que nos trazem o mundo à nossa sala, que tais ações políticas mediatizadas, aproveitando o que os outros decidiram, não passam de uma ‘esperteza saloia’, mas infelizmente não o é… será mesmo incompetência!