A revista Visão, nº. 1740, de 09-07 a 15-07-2026, traz uma entrevista muito pertinente e sugestiva a Salman Rushdie, conduzida por Rui Tavares Guedes. Para além do sentido de humor que o caracteriza, não obstante o ódio e as ameaças de morte de que é alvo há décadas, tendo sofrido um violento atentado em 2022, Rushdie nunca escolheu o ódio, a vingança, a amargura ou a raiva (pp.38 e 39). Escritor um pouco obsessivo (p.38), e homem livre (p.46), os seus livros, como diz, constituem «reações ao mundo em que vive», porque a literatura serve «para contar histórias e provocar o pensamento» (p.44), pois, a «literatura muito raramente muda o mundo», confessa (p.44). No entanto, parece-me que se ajuda a pensar, então a literatura tem o poder de mudar o coração dos homens, porque mais que «vítimas dos acontecimentos, somos construtores do mundo» (p.38). Não se pode deixar apenas para os outros ou para alguns, essa obra de transformação, mas cada um deve assumir, em cada circunstância, o seu papel e a sua responsabilidade, lutando contra todos as formas de absolutismo e ditadura. Hoje, em muitos sectores da sociedade e das Instituições, presenciamos a formas autoritárias de exercício do poder. Usado não como um serviço ao bem comum, mas como instrumento de perseguição, cancelamento e até saneamento de quem não pensa da mesma forma ou não é do grupo, apesar das suas competências técnicas e científicas. Esta travestida ditadura do pensamento único e de grupo mina o exercício do poder representativo e não só, como se tivesse sido dada ‘carta branca’ para tudo. Cabe-nos permanecermos firmes nos nossos princípios e na defesa da liberdade de pensar e de agir, mesmo que possa haver perseguição, opressão e até ameaças dos que foram mandatados para exercer o poder, ainda que provisoriamente. Pergunta-se: como se pode continuar a defender a liberdade de expressão? Rushdie responde: «Defendendo-a, simplesmente (…) Não há garantias. Defende-se e pronto» (p.42). Diria, defende-se com ideias e ações, mesmo diante dos poderes institucionalizados e de grupo. É preciso continuar a pensar e a resistir, sabendo que, por vezes, isso pode até custar o posto de trabalho, a despromoção, a obstrução de processos, a humilhação, e quem sabe, em situações mais extremas, a vida. Apesar de algumas diferenças de perspetiva que mantenho com Salman Rushdie, fica a admiração por um homem que continua a resistir e a ajudar-nos a pensar e a lutar pela liberdade.


