O amor foi feito para ser simples. Nasce de um olhar sincero, de um gesto despretensioso, de uma vontade tranquila de estar perto. Chega sem anunciar a sua chegada e instala-se devagar, como a luz da manhã que entra por uma janela entreaberta. Quando é verdadeiro, não pesa. É brisa. É abrigo. É aquele lugar raro onde a alma descansa sem medo.
Mas somos nós que o complicamos.
Complicamo-lo com as cicatrizes que trazemos de histórias antigas, com os receios que ainda sussurram dentro de nós, com as desilusões que transformámos em muralhas. Erguemos defesas sem perceber que, ao tentar proteger o coração, acabamos muitas vezes por o aprisionar.
Quando nos apaixonamos, em vez de nos entregarmos, criamos regras. Tentamos controlar o que nasceu para ser vivido. Medimos palavras, vigiamos emoções, escondemos fragilidades. Procuramos garantias para aquilo que, por natureza, é vento, maré e mistério. E, nessa tentativa de segurar o amor entre os dedos, deixamos escapar a sua essência.
Esquecemo-nos de que o amor não é um jogo, nem um campo de batalha. É um lugar de encontro. Um espaço sagrado onde duas pessoas podem pousar as armaduras e mostrar, sem receio, as suas imperfeições.
O amor não precisa de ser perfeito. Precisa apenas de ser verdadeiro. Mesmo com medo. Mesmo com dúvidas. Porque amar é aceitar caminhar por uma estrada sem mapa, confiando que o coração saberá reconhecer o caminho.
Talvez os momentos mais bonitos aconteçam precisamente quando deixamos de calcular cada passo. Quando trocamos o controlo pela confiança e permitimos que a ternura fale mais alto do que os receios.
É aí que o amor revela a sua verdadeira força. Não nos grandes gestos, mas na simplicidade de quem escolhe ficar. De quem cuida. De quem permanece.
E talvez tudo comece nesse instante raro em que deixamos de tentar compreender o amor… e simplesmente o deixamos florescer dentro de nós
O Sentido das Palavras
Carlos Cabrita
2026


