Ser Como o Rio

O rio não discute com as pedras que encontra no caminho.
Não levanta a voz, não se impõe, não perde tempo a provar que tem razão. Ele escuta… como se cada obstáculo fosse apenas uma pausa breve na música do seu correr. E então, sem pressa nem revolta, contorna.

Há uma delicadeza nesse gesto, uma sabedoria silenciosa que o torna maior do que qualquer resistência. O rio não luta contra o que o impede, aprende a contornar o que encontra, com a paciência de quem compreende que o tempo também trabalha a seu favor, ele segue.

Não desiste de avançar, mas também não insiste em ferir. Flui. E nesse fluir há uma ternura rara, uma espécie de inteligência líquida que lhe ensina a ceder sem se render, a mudar sem se perder. Porque o rio não precisa vencer a pedra. Precisa apenas continuar.

E continua… mesmo quando o leito se estreita, mesmo quando o silêncio pesa, mesmo quando parece que tudo o quer deter. Adapta-se, como quem aprende a dançar com a vida, mesmo quando a música se torna incerta. Gota a gota, escreve o seu caminho no mundo, sem pressa, sem guerra, mas com uma fidelidade profunda ao seu destino.

Talvez seja isso que a vida nos pede. Que sejamos rios dentro de nós. Que não endureçamos diante da dor, que não nos quebremos perante o impossível. Que saibamos contornar, seguir, confiar.

Porque há uma força imensa em quem continua a fluir, mesmo quando tudo parece querer parar.

E, no fim, quase sem dar por isso, é sempre o rio que encontra o mar.

 

 

O Sentido das Palavras

Carlos Cabrita

2026