O Evangelho segundo São Mateus, o evangelista deste ano litúrgico, refere que depois da morte de Jesus, um homem rico de Arimateia, de seu nome José, que era discípulo de Jesus, tinha pedido o corpo do Senhor a Pilatos, que assentiu. José tomou o corpo de Cristo morto, envolveu-o num lençol, e colcou-O no seu sepulcro novo, que tinha sido aberto na rocha, tendo rolado uma grande pedra para a porta do sepulcro, e José regressou a sua casa (Mt 27, 57-61).
Jesus, morto, é depositado no sepulcro. Para muitos é o fim, e deixam o local abatidos, desencantados, frustrados e até revoltados. O mistério da vida e da morte é grande. Hans Holbein, o Jovem, um artista alemão do século XVI, pintou o corpo de Cristo morto no sepulcro (1521-1522). Uma pintura inquietante, perturbadora, comovente e que nos questiona. Cristo está inanimado, frio, o seu corpo traz as marcas da sua Paixão. Expressa toda a condição mortal do ser humano, finita e frágil. Aliás, é a sua humanidade que Holbein pretende acentuar, despindo pictoricamente Cristo da sua divindade.
O Jesus de Holbein de modo algum poderá voltar à vida. No fundo, é um quadro sem esperança cristã, como se as profecias da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus (Mc 8, 31; 9, 31; e 10,32-34), fossem apenas palavras que não encontram qualquer correspondência com a realidade. Se esta cena correspondesse ao desfecho final da vida de Jesus, seria apenas mais um episódio comum na história da humanidade. No entanto, se atentarmos nas três profecias da Paixão de São Marcos, em todas elas se verifica expressão: «ao terceiro dia ressuscitará» (v. 31; v.31; v.34). É preciso passar do Cristo morto de Holbein, sem fé e sem esperança, ao Cristo da fé.
No romance, ‘O Idiota’, de Dostoiévski (Ed. Presença), há um diálogo interessante a propósito da pintura de Holbein. Uma das personagens que detém uma cópia do mesmo quadro, confessa que gosta de olhar para ele, enquanto outra retorque imediatamente: «Para aquele quadro! Mas, por causa daquele quadro toda a fé é capaz de desaparecer» (p. 229). Sim, para certa mentalidade, até mesmo para cada um de nós, se não entrarmos no mistério de Cristo, toda a fé poderá realmente desaparecer. Face ao ‘Cristo Morto’ de Holbein, a fé pode sucumbir diante do Seu cadáver e quando confrontados com a morte de um inocente, onde estão prefigurados todos os inocentes da história, corremos o risco da desesperança.
Como foi dito ao início é grande o mistério da vida e da morte, que só em Cristo adquirem sentido. A resposta à deposição de Cristo no túmulo, é o túmulo vazio do terceiro dia. É a manhã de Páscoa, quando o Anjo diz às mulheres, no Evangelho de São Marcos: «Buscais a Jesus de Nazaré, o crucificado? Ressuscitou; não está aqui.» (Mc 16,6). Este é o anúncio e o testemunho de que a Igreja é portadora, e do qual deve ser serva e servidora, proclamando-o a todos, em todos os lugares e tempos. Uma Santa Páscoa!


