«Assim como as flores murcham / E a juventude cede à velhice, / Também os degraus da vida, / A sabedoria e virtude, a seu tempo / Florescem e não duram eternamente. / A cada apelo da vida deve o coração / Estar pronto a despedir-se e a começar de novo, / Para, com coragem e sem lágrimas se dar a outras novas ligações. / Em todo o começo reside um encanto que nos protege e ajuda a viver». Este trecho de um poema, ‘Degraus’ de Hermann Hesse (1877-1936), que se encontra num dos seus romances mais extraordinários, ‘O Jogo das Contas de Vidro’, parece à primeira vista um pouco melancólico, mesmo angustiante, mas secretamente está prenhe de uma esperança e de uma positividade, de que a vida também é feita, e de que necessita. Ao longo destes meses, nestas Paróquias, mas sobretudo aqui por Santo André, tenho visitado alguns doentes e recebido muitas pessoas. Situações e histórias muito diferentes, mas em todas elas coincide a densidade da vida humana e também a presença de Deus. Tantos corações, uns em aparente despedida, outros a chegar, no entanto, para todos é, ou pode ser, um começo. Sabemos que partir, deixar, despedir-se é sempre doloroso, ainda que para recomeçar. A vida sempre nos despoja, com ou sem a nossa colaboração. Nas minhas visitas aos doentes, seja em casa, ou até no nosso Hospital, para levar o toque e o amor de Deus através dos Sacramentos e da escuta, fiquei impressionado com o amor de um marido, de uma filha, mas também impressionado pelo amor de avós, tios e amigos. Um amor feito de gestos concretos, de renúncias, de lágrimas, de dores e angústias, mas também de alegrias, de ternura, dedicação, renúncia e doação. Um amor que toca a carne e alma feridas, dos que são cuidados e dos que cuidam. Por isso, um amor que é fonte de cura para todos. A vida é tecida de tudo isto, mas só o amor salvará o mundo. Não um amor idealizado, mas este amor que tem a concretude da carne humana que devemos tocar e cuidar e que exige, porque também é amor, renúncia e sacrifício. O poema de Hesse termina dizendo: «O apelo da Vida nunca tem fim… / Vamos Coração, despede-te e cura-te!». Ao recordar cada visita, agradeço aos Ministros Extraordinários da Comunhão e aos Visitadores de Doentes da Paróquia, o enorme serviço que prestam, pois tem sido através da sua dedicação e disponibilidade que se tornou possível ir ao encontro dos que mais precisam e tocar tantos rostos e situações que trazemos em oração. Situações muito difíceis, com pessoas e famílias a braços com doenças irreversíveis e condições de total dependência e fragilidade. E ainda assim vemos esperança, vemos amor que nada espera, que tudo suporta, um amor que crê, um amor que existe e torna reais as palavras do Apóstolo São Paulo grafadas na sua Primeira Carta aos Coríntios (1 Cor 13, 1-13), que é na verdade uma carta para mim e para ti.
Só o amor salvará o mundo


