CRÓNICA DA QUOTIDIANA VIVÊNCIA – José Manuel Claro
1 – Poder-se-á igualmente dizer que… desandou!
Confessamos que, nestes últimos tempos, já sentíamos algumas saudades destas movimentações e, se um qualquer ‘desandanço’ se pôde observar, após uma primeira leitura dos votos expressos neste último ato eleitoral Autárquico, depois de passadas as euforias dos que ganharam e os desgostos dos que perderam, há que olhar para esses mesmos resultados e perguntar como é que eles se farão sentir diretamente na gestão das Autarquias.
Uma parte dos resultados expressos nas urnas de voto, refletem a necessidade de acordos pós-eleitorais, como forma de se viabilizarem os orçamentos, o mesmo que será dizer, para que se possa passar das promessas aos atos. A repartição de mandatos que, nalguns casos, se poderá considerar como equitativa entre as duas principais forças candidatas, irá certamente obrigar a aturados e consubstanciados diálogos, como forma de se assegurar o governo futuro das Edilidades.
2 – No dia seguinte ao escrutínio, o silêncio como que se apoderou da paisagem que, digamos, voltou à sua costumeira acalmia, após uma quinzena de campanha porta a porta, café a café, mercado a mercado e em ruidosas caravanas, num ‘pressing’ que almejava o convencimento de cada um por cada qual, como diria o povo, numa atividade política que registamos como primordial para a sensibilização dos, cada vez menos indecisos e mais convictos ausentes da votação. É certo que se conseguiu uma diminuição da abstenção, o que poderemos considerar, independentemente das análises politicamente mais ou menos fundamentadas, como uma primeira grande vitória, saída deste escrutínio.
Depois, surgiu-nos pela frente um autêntico terramoto político no Litoral Alentejano, com possível anúncio de tsunami pós-eleitoral, em que a CDU perde três Câmaras Municipais: Alcácer do Sal, Grândola e Santiago do Cacém. Convirá aqui referir, que, em relação a Sines, a CDU, recuperou a Câmara que estava em poder do PS, numa eleição que certamente foi influenciada pelo carisma político do Dr. Álvaro Beijinha, que, a esse nível, não encontrou concorrência de peso nas restantes candidaturas que se fizeram a votos. Se as duas primeiras, Alcácer do Sal e Grândola, quase que eram como que a ‘crónica de uma morte anunciada’, fruto da passividade com que os coletivos Autárquicos, assistiram à privatização da orla costeira, com os cortes nos acessos públicos a uma parte do território que é de todos, já em relação a Santiago do Cacém, poder-se-á fazer uma leitura algo diferente e encontrar fundamentos numa falta de empenho dinamizador Autárquico em relação ao turismo da região e a uma maior exploração das potencialidades que o Concelho dispõe, no sentido de se melhorar as condições de vida da sua população.
3 – O Rei está morto, viva o Rei!
Lá ao fundo, no início do próximo ano, já se vislumbra uma nova eleição, toda ela importante para o contexto político em que vivemos, mas que acabará sempre por evidenciar a incapacidade negociadora dos nossos atuais dirigentes políticos, face aos cenários projetados pelas candidaturas já anunciadas, se bem que, nem todas elas se efetivarão, mas cujo contexto anunciado, já nos vai permitindo uma leitura inicial, ainda que muito sumária.
Aqui, o analista correrá sempre o risco motivado pelo estado de insanidade política evidenciado pelo eleitorado português nestes dois últimos atos realizados no nosso País, e que conduziram a duas votações que, de tão díspares entre si, não auguram nada de bom quanto ao futuro. Esse comportamento agora evidenciado, em tudo se assemelha a um barco prestes a naufragar, com os porões inundados. Como é que é possível uma opção de governo da República, na qual o CHEGA foi escolhido como segunda força política, e que passados meia dúzia de meses, quando efetivamente urgia passar ao real esses ideais de governação, as propostas desse mesmo partido tenham sido votadas ao esquecimento por parte do eleitorado, tendo originado uma perda de cerca de oitocentos mil votos, em relação à votação obtida nas legislativas. Talvez um bocadinho mais de ciso e vergonha na cara, não fariam mal a esse eleitorado que, pelos vistos, anda a brincar com o fogo, como que alimentando com a sua menoridade intelectual, a inviabilidade de um futuro estável e mais promissor para a nossa sociedade, como certamente será o desejo de todos.
JOSÉ MANUEL CLARO.


