O MUNDO EM RETALHOS

CRÓNICA DA QUOTIDIANA VIVÊNCIA – José Manuel Claro

 1 – É, e será sempre, uma condicionante do trabalho de um qualquer colunista num qualquer periódico, sucedendo sempre que nos predispomos a escrever esta coluna.

O nosso dia-a-dia, está como que subjugado pela guerra ao vivo e em direto, aos conflitos que se desenrolam cada vez mais perante o nosso olhar, e que os repórteres de guerra nos fazem entrar na nossa casa, através daquelas janelas que temos sempre abertas para o mundo, os recetores do sinal televisivo. Apesar de vivermos numa zona nevrálgica, no que concerne à prioridade de sermos atingidos pelos conflitos que se desenrolam na Europa ou às suas portas, dada a situação estratégica de Sines e os seus terminais de combustíveis, carga contentorizada e amarração de cabos submarinos, ainda não fomos alvos de uma qualquer ação direta por parte dos habituais intervenientes na cena política mundial. As tentativas de controlo e hegemonização nas estruturas existentes, já se fazem sentir e certamente tornar-se-ão mais consistentes, à medida que a situação energética ganhe foros de preponderância no panorama internacional. Segundo a ONU, vinte e cinco outros sinais evidentes de conflitualidade, grassam por este mundo fora e que vão minando a estabilidade e paz e o desenvolvimento mundial.

 

2 – Mais uma vez a ‘World Press Photo’, uma organização independente sem fins lucrativos, fundada em 1955 em Amsterdão e conhecida por realizar anualmente a maior e mais prestigiada distinção de fotojornalismo do mundo, divulgou o acervo fotográfico referente ao ano que findou.

Da mostra deste ano, retivemos no nosso espírito, aquela imagem de duas afegãs, mãe e filha, submetidas à mesma tirania social por parte dos Talibans – retidas em casa e sem poderem frequentar uma escola. Quando somos bombardeados diariamente com imagens daquilo a que chamamos de guerra ao vivo, muitas das vezes, para não dizer sempre, como que esquecemos a vivência em certos regimes que vão muito para além do fenómeno esclavagista direto, secundarizando, quando mesmo não anulando, o direito à vida digna em sociedade, a uma parte substancial da sua população, com base apenas na sua condição de género.

 

3 – Como que para amenizar o ambiente desta crónica, convirá aqui referir que na passada sexta-feira, deu-se a abertura da Lagoa de Santo André ao mar, intervenção anual, destinada à limpeza dos fundos e reposição dos cardumes, assegurando-se assim a vitalidade ecológica da referida Lagoa.

Contudo, esta ação de abertura ao mar, contém em si, uma enorme panóplia de sentimentos e emoções, diretamente relacionadas com as gentes que vivem nas suas margens e que, muitas delas, angariam o seu sustento direto, na atividade piscatória que por ali desenvolvem.

Em 2016, fizemos uma reportagem sobre a abertura da Lagoa ao mar, texto que recordamos:

«Intigamenti ela era aberta a braço e com juntas de bois», intrometeu-se o Xico das Enguias, entretanto aqui chegado, pescador que desde que nasceu, sempre aqui viveu e ganhou o seu sustento.

Com os sulcos da vida bem marcados no rosto, assomou-se ao topo da duna espraiando olhar mar adentro, assim se mantendo durante largos minutos.

«Sabi, nestes dias ele veste a roupa nova e vem falar com o mári», explicou a mulher do Xico, Maria Patanisca, que com a sua irmã, se sentou, entretanto, no dourado areal.

«Ele perdeu o pai naquela volta de mári em sessenta e três e agora deu nisto, todos os anos aqui vem», acrescentou à laia de justificação.

Entretanto, com o sol a caminhar para o ocaso, aumenta o corrupio das gentes, repórteres das rádios locais, das estações televisivas, empresas de produção de conteúdos multimédia, qual procissão praia adentro, acercando-se do estreito canal que irá, como um cordão umbilical, dar mais vida às paradas águas lagunares.

De repente, do meio da multidão, suou um estridente «Foi ao mári!». Era o Xico das Enguias comunicando ao mundo o início de mais um milagre regenerador.

Estava consumado. Enxugando os lacrimosos olhos com um amarfanhado lenço branco e retirando-se indiferente àquela multidão, olhou para mim e: «Um hómi por muito forti que seja, né de ferro e ali, tá a alma do mê pai», rematou justificando aquelas lágrimas que teimosamente lhe corriam rugas abaixo. Estava consumada mais uma abertura da Lagoa ao mar.  JOSÉ MANUEL CLARO