QUEM PARTE E REPARTE…

CRÓNICA DA QUOTIDIANA VIVÊNCIA – José Manuel Claro

 1 – E não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte!

Reza assim um aforismo popular português, que tal como todos os aforismos, sintetiza empiricamente um determinado comportamento social.

Se esse empirismo analítico foi sendo sedimentado ao longo dos anos, lógico será que aqui ou ali, no nosso quotidiano, tropecemos com situações que nos recordam esse saber popular.

Bastar-nos-á olharmos para o mundo e para a dita nova ordem que está a surgir nos seus quatro cantos, para, recorrendo ao saber popular, tentarmos compreender o que à partida nos seria incompreensível. Não que estejam a surgir novos blocos hegemónicos de ingerência, sendo fácil de constatar que os três grandes blocos existentes, o chinês, o russo e o americano, apenas resolveram alterar os limites geográficos da dita hegemonia. A Rússia sonha com a reconstrução do antigo império dos Czares, e começou pela Ucrânia, ao mesmo tempo que vai fazendo veladas ameaças às Repúblicas que antigamente compunham a URSS, herdada desses imperiais tempos.

A China quer recuperar, a todo o transe, a sua parte insular, Taiwan, um potentado económico que a par da Coreia do Sul, Hong Kong e Singapura, constituem o bloco dos ‘Tigres da Ásia’, sendo que estes dois últimos já voltaram à esfera administrativa do colosso chinês.

Os Estados Unidos da América, quiçá galvanizados por esta extrapolação territorial das outras duas potências, fizeram saber dos seus apetites pelo Canal do Panamá e pela Gronelândia.

 

2 – Evidentemente, que bastaria um simples olhar para a história do mundo, para percebermos que estes arremedos imperialistas, mais não passam do que uma corruptela, do tratado celebrado entre os reinos de Portugal e da Espanha, a 7 de junho de 1494, na localidade espanhola de Tordesilhas, e em que ficou acordado a divisão do mundo em dois hemisférios.

Na altura, época em que estes dois Países ibéricos davam novos mundos ao mundo, a coisa não foi feita por menos, ao ponto de alguns historiadores considerarem o Tratado de Tordesilhas, um acordo megalómano e o maior alguma vez celebrado entre dois países.

A velha Europa, olha para toda esta situação atual, com alguma estupefação e, distraída como parece andar, foi aos poucos enfeudando-se aos Estados Unidos da América, a pretexto da aliança militar saída da 2ª Grande Guerra, a NATO, tendo-se constituído como joguete americano no conflito que opõe a Rússia à Ucrânia.

 

3 – Perante toda esta movimentação mundial, surge agora no horizonte, a ameaça do Presidente recém eleito nos Estados Unidos, de anexar ao seu território, a Gronelândia, parcela autónoma, pertencente a um dos seus aliados na NATO, a Dinamarca.

Seria de difícil compreensão a posição americana se não a conjugássemos com a das duas outras superpotências, China e Rússia, envolvidas na repartição do mundo.

O tabuleiro de todas estas movimentações, temo-lo no continente africano, onde, de uma forma algo atabalhoada, o Presidente americano em final de mandato, visitou Angola, tentando aquilo que estilisticamente se pode considerar como que uma tentativa de ‘espetar uma lança em África’, território que já sofre uma influência muito consistente da Rússia e da China, quer através de bases militares e fornecimento de armamento por parte da Rússia, quer com o fornecimento de apoio material ao nível da economia por parte da China.

Perante este cenário, os Estados Unidos da América viraram-se para um seu aliado e tentam retirar-lhe uma fatia territorial, num ato incompreensível para além de uma reação infantil baseada num infantil «eu também quero!».

 

4 – Por outro lado, assistimos às promessas, por parte do Presidente eleito dos Estados Unidos, de continuar a erguer o muro entre o seu país e o México, como forma de obstar à passagem de populações em busca de um futuro materialmente melhor, ignorando a história e o resultado obtido pela China, com a construção da Grande Muralha, monumento que vale pelo seu gigantismo e atração turística, mas nunca pelos objetivos que presidiram à sua construção.

Será que os Estados Unidos, não conseguem aprender com os erros dos outros e, já agora, com os seus próprios?         JOSÉ MANUEL CLARO