CRÓNICA DA QUOTIDIANA VIVÊNCIA – José Manuel Claro
1 – Quem o afirmou, foi Sófocles, dramaturgo grego que viveu em Atenas entre os anos de 497 e 405 a.C., em plena democracia ateniense, comandada por Péricles.
Este pensamento, passado para as peças que, entretanto, escreveu, permite-nos fazer luz sobre as condutas sociais, já naquelas épocas vividas, no seio de um regime democrático e aqui convirá relembrar a Grécia enquanto berço da democracia.
Será certo que a sociedade, à época, não se regia pelas mesmas condutas que poderemos constatar nos nossos dias, apenas o regime instituído à época, era a democracia que chegou até nós trazida pelos dramaturgos, filósofos e outras pessoas do saber.
Uma coisa é certa, e está historicamente documentada, a existência de grupos de debate de ideias, onde perante as propostas apresentadas, o assunto era debatido e, como resultado desse debate, nasciam as linhas programáticas destinadas ao governo das então Cidades Estado.
É daqui que nasce, certamente, a constatação elaborada por Sófocles, ao aperceber-se que as posições defendidas por cada um, mais tarde, quando aplicadas na prática, não corresponderiam exatamente às ideias defendidas inicialmente e afastar-se-iam do prometido.
2 – Vem tudo isto a propósito do momento atual que vamos vivendo no nosso País, a braços com campanhas eleitorais, atos eleitorais e outras situações em espera.
Refiro-me exatamente ao ato eleitoral agendado para dez de março, no Continente, ao ato eleitoral realizado, por estes dias, na Região Autónoma dos Açores, e à situação a ser vivida na Região Autónoma da Madeira.
Temos assistido a um desfilar de promessas, feitas com um ar circunspeto por parte dos proponentes, geralmente em busca de uma eleição, o que, no mínimo, será legítimo em democracia.
Contudo, as argumentações aduzidas e as promessas feitas, se outras virtudes não tivessem, seriam certamente a génese da mais elementar pergunta que certamente acabará por surgir na mente de cada um: «o que é que eu tenho andado a fazer desde o 25 de Abril?».
A eleger governos, será a resposta mais consentânea com a prática que seguimos.
Aqueles que, até hoje governaram o nosso País, e por largos períodos de tempo, de um dia para o outro aparecem com as panaceias milagrosas destinadas a tudo resolver e com um beneficiário comum: o povo.
No mínimo estranhas, essas promessas, se olharmos para as condutas que têm sido seguidas ao longo de anos e anos de governo dos partidos do arco da governação e que excetuando, medidas muito pontuais, tem conduzido a sociedade portuguesa para um ranking social cada vez mais baixo, no seio da Comunidade Europeia, em que estamos inseridos.
3 – Mas, o que mais custa aceitar, é a desfaçatez como essas ditas promessas são feitas e a facilidade que se dá o dito por não dito.
Quando confrontados com a evidências contraditórias das propostas, refugiam-se numa dialética de ataques pessoais, tentando desviar as atenções do eleitor para aquilo que substantivamente interessa ao povo que se propõem governar.
A campanha em curso, tem sido um vazio de propostas exequíveis e uma mão cheia de coisa nenhuma, prometidas a quem, por direito, irá cumprir o seu dever com a ida às urnas na data e hora marcadas.
Sófocles, que, já à época, se indignava com as mentiras propaladas na sociedade helénica, caso vivesse por estes dias, no imenso turbilhão eleitoral e indefinições políticas em que o nosso País está mergulhado, certamente concluiria o mesmo, mas, espantar-se-ia, certamente com o encurtar da vida das mentiras que por cá vão sendo propaladas, de boca cheia e de cara alegre.
É a síndrome das novas estrelas, que surgem no firmamento político como cogumelos, após uma chuvada e logo de seguida afagados por um sol, o que em muito contribui para esse desabrochar, só que, sendo comestíveis os ditos cogumelos, alguns, sê-lo-ão apenas três vezes: a primeira, a única e a última.
A mentira, com a vida muito encurtada, não vence direito a uma reforma por velhice, o que, convenhamos, será uma benesse para o Orçamento Geral do Estado. Valha-nos isso!


